Conhecido por ter realizado obras-primas como "Dr. Strangelove", "Lolita", "2001: A Space Odissey", "A Clockwork Orange", "The Shining", entre outras, Stanley Kubrick realizou na sua carreira três documentários em formato de curta-metragem, ainda longe do brilhantismo posterior, mas nem por isso menos merecedor de alguma da nossa atenção. A primeira obra cinematográfica realizada por Stanley Kubrick foi "Day of the Fight", um documentário lançado em 1951, baseado num trabalho fotográfico desenvolvido pelo cineasta para a revista "Look", que acompanha um dia da vida do boxeador profissional, de pesos-médios, Walter Cartier. Com o narrador a apresentar-nos este indivíduo, logo ficamos a saber que para Walter o pior não são os treinos duríssimos mas sim a espera nas horas antes do combate, com a ansiedade a acercar-se do corpo do protagonista, tendo nestes momentos de adversidade a companhia de Vincent, o seu irmão gémeo, com quem vive na mesma casa. "Day of the Fight" coloca-nos perante o quotidiano de Walter antes da luta, com episódios como a pesagem para saber se está apto para o combate, frequentar o restaurante preferido, conversar com o irmão, brincar com o cão, até chegar às 10h da noite, a hora do grande combate. Esta disputa contra Bobby James, um ex-marinheiro que nunca perdeu por KO, poderá ser a trigésima sexta vitória para Walter e simbolizar a subida de mais um degrau até à glória, sendo exposta de forma eficaz pela câmara de Kubrick, sempre pronto a dar atenção aos movimentos dos personagens. Produzido, realizado e com fotografia de Stanley Kubrick, "Day of the Fight" revela alguns bons apontamentos de um realizador ainda numa fase de aprimorar o seu talento na realização cinematográfica, apresentando um trabalho de câmara eficaz, numa obra filmada a preto e branco que nos conduz a este explorar de um dia de um boxeador nas vésperas de um combate, através do caso particular de Walter Cartier. Kubrick viria a abordar a história de um boxeador em "Killer's Kiss", um filme noir que colocava Davey Gordon, o protagonista, a ter de proteger Gloria e a sua vida, perante a ameaça do chefe desta e dos seus homens. Em "Day of the Fight", é o dia da luta que interessa ao cineasta, exposta em parte com a cumplicidade do narrador, Douglas Edwards, filmada com câmaras Eyemo, em 35 mm, contando com um orçamento de 3900 dólares e tendo sido posteriormente vendida para a RKO, expondo com algum realismo o combate do lutador Walter Cartier.
Cartier foi mesmo um boxeador na vida real, tendo apresentado um conjunto de resultados interessantes e ficado imortalizado não só por este mini-documentário, mas também por alguma participações em filmes e séries televisivas. Quem certamente iria ficar mais conhecido é Stanley Kubrick, mas passemos agora para outro dos seus trabalhos menos mediáticos, "Flying Padre", uma curta realizada quando o cineasta tinha apenas vinte e três anos de idade, tendo sido financiada pela RKO e sido elaborada em 1951. "Flying Padre" acompanha dois dias da vida do reverendo Fred Stadtmuller, um indivíduo do Novo México, que pilota o seu avião há seis anos, cujas 11 paróquias se encontram separadas por uma área superior a 6000 Km2. Quando nos é apresentado pela primeira vez, Fred encontra-se a caminho de Gallegos para realizar o funeral de um trabalhador deste espaço rural. Este preside a várias orações nocturnas, tendo na maioria paroquianos hispano-americanos, principalmente pequenos camponeses e agricultores, sendo um conselheiro dos elementos da comunidade, incluindo dos mais novos (veja-se quando uma jovem rapariga pede para o padre aconselhar Pedro, outro jovem, a não a tratar mal). O filme não se limita à actividade de Fred como reverendo, explorando também os seus passatempos, tais como fazer criação de pássaros, caçar cervos, manter o seu avião, ao longo de uma curta-metragem cuja duração de nove minutos esconde um documentário de algum interesse, filmado a preto e branco, tal como "Day of the Fight" e pronto a dar-nos a conhecer o quotidiano de um padre ao longo de um período restrito de tempo. "Flying Padre" não procura dar mais do que promete no seu título, apresentando-nos o quotidiano de um padre de uma região rural, notando-se um agradável trabalho de fotografia, uma assertiva narração dos acontecimentos por Bob Hite e uma atenção ao pormenor digna de algum relevo, embora mais tarde Kubrick se tenha referido ao filme como uma "silly thing". Posteriormente Stanley Kubrick realizou "Fear and Desire", a sua primeira longa-metragem, e "The Seafarers" (1953), um documentário em formato de curta-metragem, “descoberto” em 1973 por Frank P. Tomasulo, que surgiu como o seu primeiro trabalho a cores, centrando-se na vida de um conjunto de marinheiros, em particular na "Seafarers International Union" (S.I.U.).
Cartier foi mesmo um boxeador na vida real, tendo apresentado um conjunto de resultados interessantes e ficado imortalizado não só por este mini-documentário, mas também por alguma participações em filmes e séries televisivas. Quem certamente iria ficar mais conhecido é Stanley Kubrick, mas passemos agora para outro dos seus trabalhos menos mediáticos, "Flying Padre", uma curta realizada quando o cineasta tinha apenas vinte e três anos de idade, tendo sido financiada pela RKO e sido elaborada em 1951. "Flying Padre" acompanha dois dias da vida do reverendo Fred Stadtmuller, um indivíduo do Novo México, que pilota o seu avião há seis anos, cujas 11 paróquias se encontram separadas por uma área superior a 6000 Km2. Quando nos é apresentado pela primeira vez, Fred encontra-se a caminho de Gallegos para realizar o funeral de um trabalhador deste espaço rural. Este preside a várias orações nocturnas, tendo na maioria paroquianos hispano-americanos, principalmente pequenos camponeses e agricultores, sendo um conselheiro dos elementos da comunidade, incluindo dos mais novos (veja-se quando uma jovem rapariga pede para o padre aconselhar Pedro, outro jovem, a não a tratar mal). O filme não se limita à actividade de Fred como reverendo, explorando também os seus passatempos, tais como fazer criação de pássaros, caçar cervos, manter o seu avião, ao longo de uma curta-metragem cuja duração de nove minutos esconde um documentário de algum interesse, filmado a preto e branco, tal como "Day of the Fight" e pronto a dar-nos a conhecer o quotidiano de um padre ao longo de um período restrito de tempo. "Flying Padre" não procura dar mais do que promete no seu título, apresentando-nos o quotidiano de um padre de uma região rural, notando-se um agradável trabalho de fotografia, uma assertiva narração dos acontecimentos por Bob Hite e uma atenção ao pormenor digna de algum relevo, embora mais tarde Kubrick se tenha referido ao filme como uma "silly thing". Posteriormente Stanley Kubrick realizou "Fear and Desire", a sua primeira longa-metragem, e "The Seafarers" (1953), um documentário em formato de curta-metragem, “descoberto” em 1973 por Frank P. Tomasulo, que surgiu como o seu primeiro trabalho a cores, centrando-se na vida de um conjunto de marinheiros, em particular na "Seafarers International Union" (S.I.U.).
Das três curtas-metragens de Stanley Kubrick, "The Seafarers" é aquela que tem uma maior duração (cerca de vinte e oito minutos e quarenta e quatro segundos), sendo também a mais ambiciosa, embora a menos conseguida das três, perdendo-se na sua excessiva vertente publicitária, ou não tivesse sido foi por encomenda do Sindicato Internacional de Marinheiros. O documentário apresenta-nos a sede da S.I.U. para o Atlântico, os seus escritórios dirigidos por marinheiros e para marinheiros, bem como a sede do sindicato, numa obra publicitária à Seafarers Internatonal Union feita mais para Stanley Kubrick pagar as contas e apurar a sua habilidade na realização cinematográfica do que para problematizar questões relacionadas com a vida dos marinheiros, surgindo tudo de forma muito apolínea, como se os trabalhadores tivessem todas as condições de trabalho e tudo fosse proporcionado aos mesmos. Não faltam momentos de lazer dos trabalhadores nas sedes, a exposição diante do espectador das condições dos escritórios, cafetarias (com "muito espaço, muita comida boa e barata"), barbearias das sedes, o convívio entre elementos da S.I.U., as regras internas, entre outras comodidades. Temos ainda os marinheiros a dizerem o que significa para si a União, as comodidades e benefícios prestados aos trabalhadores e às famílias, o jornal da "União", a exibição dos navios e do trabalho no seu interior, sempre numa vertente propagandística, onde tudo no interior da S.I.U. parece ser maravilhoso, ao contrário do documentário realizado por Stanley Kubrick, cujo interesse centra-se acima de tudo no valor histórico da obra cinematográfica, que se revela acima de tudo um anúncio de longa duração da empresa. "The Seafarers" conta com um argumento de Will Chasen, capaz de expor de forma publicitária as vantagens de se trabalhar na S.I.U., mas incapaz de perceber a enormidade de vezes em que a sigla é repetida ao longo de um filme, onde se nota uma evolução de Stanley Kubrick no trabalho com a câmara de filmar, não faltando a utilização de travellings (ou tracking shot, como se pode ver na cena da cafetaria), uma técnica que seria posteriormente utilizada pelo lendário cineasta em futuros trabalhos.
Se disséssemos que em "The Seafarers" já poderíamos prever as obras-primas magníficas que Stanley Kubrick viria a realizar, certamente estaríamos a mentir. Existem bons pormenores, sobretudo em "Day of the Fight", mas "Flying Padre" e sobretudo "The Seafarers" mostram ainda um cineasta a precisar de trabalhar para pagar as suas contas para poder realizar obras bem mais estimulantes como as suas longas-metragens. Kubrick produziu, realizou, editou e efectuou o trabalho de fotografia dos três filmes brevemente analisados, tendo aprendido com este trabalho prático, como posteriormente viria a salientar numa entrevista a Joseph Gelmis: "The best education in film is to make one. I would advise any neophyte director to try to make a film by himself. A three-minute short will teach him a lot. I know that all the things I did at the beginning were, in microcosm, the things I'm doing now as a director and producer". Este salientou ainda que nos seus primeiros trabalhos: "I was cameraman, director, editor, assistant editor, sound effects man -- you name it, I did it. And it was invaluable experience, because being forced to do everything myself I gained a sound and comprehensive grasp of all the technical aspects of filmmaking". As duas citações exemplificam bem a importância que estas curtas-metragens tiveram para a aprendizagem de Stanley Kubrick, um cineasta que não tirou um curso de cinema, tendo aprendido em grande parte graças ao seu empenho e talento, optando inicialmente por obras mais simples, até tomar a opção de desistir da carreira de fotógrafo na revista Look e se ter dedicado por completo ao cinema. O cineasta pode ter realizado um maior número de curtas, no entanto estas três são as únicas disponíveis e prontas a exibir um talento em formação. Posteriormente a "The Seafarers", Stanley Kubrick realizou os filmes noir "Killer's Kiss" (1955) e "The Killing" (1956), bem como "Paths of Glory" (1957), até ter atingido um sucesso considerável com "Spartacus" (1960). Seguiriam-se "Lolita" (1962), "Dr. Strangelove" (1964), "2001: A Space Odissey" (1968), "A Clockwork Orange" (1971), "Barry Lyndon" (1975), "The Shining" (1980), "Full Metal Jacket" (1987) e "Eyes Wide Shut" (1999), um conjunto de obras impressionantes, pela sua qualidade e diversidade, tornando-se num dos cineastas mais relevantes da História do Cinema.


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