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No Mundo de Hong Sang-soo

sábado, 11 de janeiro de 2014

 O papel de Hong Sang-soo na História do Cinema da Coreia do Sul (e do Cinema no geral) é inolvidável, independentemente das interpretações mais simplistas que podem surgir sobre os seus filmes. Nem sempre apreciado pelo público e até por alguns sectores da crítica, Hong Sang-soo tem conhecido uma grande relevância em Festivais e Mostras de Cinema, tendo os seus filmes regularmente em tops de publicações prestigiadas, tais como os Cahiers du Cinéma, onde "Tale of Cinema" constou no oitavo lugar (2005), "In Another Country" no quinto lugar (2012) e "Nobody's Daughter Haewon" em oitavo (2013). A presença em listas e festivais de prestígio não são sinónimo de qualidade, é certo, mas identifica paradigmaticamente o que este cineasta tem conseguido ao longo de uma carreira marcada por uma enorme singularidade, cujas obras repetem elementos e temáticas comuns, quase que refazendo obras antigas com novas e belas roupagens, transformando o espectador num seu cúmplice, queira este descobrir as películas deste magnífico realizador. As suas obras primam pelo improviso dos diálogos, por protagonistas maioritariamente ligados ao campo das artes (muitos até realizadores incompreendidos como em "Virgin Stripped Bare by Her Bachelors", "Oki's Movie", "The Day He Arrives"), pelos momentos onde se consome muito álcool (soju em doses generosas) e os personagens revelam as suas fraquezas e intimidade (em todas as suas obras até "Our Sunhi"), os diálogos profundamente humanos à mesa, a desconstrução do homem sul coreano (geralmente são indivíduos incapazes de concretizarem por completo os seus objectivos), as cenas de sexo estranhas e despojadas de sensualidade (veja-se em "The Day a Pig Fell into the Well", "The Power of Kangwon Province" e "Woman is the Future of Man"). Temos ainda os célebres zooms inquietos desde "Tale of Cinema", imagem de marca do cineasta, quer para transmitir proximidade, quer para transmitir deslocamento, que rompem os seus planos maioritariamente fixos e geram algo de muito próprio. Os seus filmes podem ser acusados de não ter história, ou melhor, de não ter uma narrativa coesa ou linear, mas Hong Sang-soo parece estar pouco preocupado com isso, expondo paradigmaticamente a sua ideia sobre cinema em "Oki's Movie", quando Nam Jin-gu, o protagonista (um realizador), é questionado sobre o seu novo trabalho: "O filme parece dizer muitas coisas. O que você quer transmitir?" e este responde:  "Eu apenas fiz o filme. Eu fiz sem nenhum tema em mente. O meu filme é parecido com o processo de conhecer pessoas. Você conhece alguém e tem uma impressão, e faz um julgamento sobre isso. Mas, amanhã, você deve descobrir coisas novas. Espero que o meu filme possa ser similar em complexidade a um ser vivo. Começar com um tema iria levar tudo a um ponto só. Nós não apreciamos um filme pelo seu tema. Nós apenas somos ensinados dessa forma (...)".

 Este comentário é essencial para compreendermos as obras de Hong Sang-soo, cujos repetidos visionamentos permitem muitas das vezes que descubramos elementos novos e até tenhamos interpretações por vezes distintas sobre as películas, sobretudo se efectuarmos uma visualização alargada de boa parte dos seus filmes, onde ficamos com a certeza de estarmos perante um autor capaz de captar com enorme eficácia os pormenores dos relacionamentos humanos. Curiosamente, Nam Jin-gu é um dos protagonistas típicos das obras de Hong Sang-soo, um artista com uma visão muito própria da sua arte, com vários defeitos e virtudes, que bebe em demasia, fuma e protagoniza momentos constrangedores, tendo ainda uma relação complexa com as figuras femininas, em particular Oki (Jung Yoo-mi). Nam é interpretado por Lee Sun-kyun, um actor que colaborou com Hong Sang-soo em "Night and Day", na curta "Visitors: Lost in the Mountains", "Oki's Island", "Nobody's Daughter Haewon" e "Our Sunhi". Este é outro elemento recorrente de Hong Sang-soo, as repetidas colaborações com elementos da sua confiança, por vezes a interpretarem personagens com características semelhantes. Diga-se que as colaborações repetidas não se ficam por Lee Sun-kyun. Veja-se Moon Sung-keun, que colaborou com Hong Sang-soo em "Virgin Stripped Bare by Her Bachelors", "Woman on the Beach" e "Oki's Movie"; Kim Sang-kyun integrou o elenco de "On the Occasion of the Turning Gate", "Tale of Cinema" e "Ha Ha Ha"; Ye Ji-won esteve no elenco de "On the Occasion of the Turning Gate", "Ha Ha Ha", "Nobody's Daughter Haewon" e "Our Sunhi"; Kim Tae-woo é outro dos elementos que constou no elenco de mais do que uma obra do cineasta, nomeadamente, "Woman is the Future of Man", "Woman on the Beach", "Like You Know It All"; Uhm Ji-won esteve em "Tale of Cinema" e "Like You Know It All"; Jung Yoo-Mi integrou o elenco de "Like You Know It All", "Oki's Movie", "In Another Country" e "Our Sunhi", bem como da curta "Lost in the Mountains"; Yoo Sun-jang esteve em "Like You Know It All", "Ha Ha Ha" e ""The Day He Arrives", "In Another Country" e "Nobody's Daughter Haewon", Yoo Jun-sang esteve em "Like You Know It All", "Ha Ha Ha", "The Day He Arrives", "In Another Country" e "Nobody's Daughter Haewon", Go Hyun-jung constou no elenco de "Woman on the Beach", "Like You Know It All" e efectuou uma participação especial em "The Day He Arrives"; Moon So-ri esteve em "Like You Know It All", "Ha Ha Ha" e "In Another Country", entre outros exemplos.

 Ficamos assim perante um leque alargado de actores e actrizes que repetiram as parcerias com Hong Sang-soo, revelando uma certa familiaridade entre as diferentes obras do cineasta que vão muito para além das temáticas. Essa repetição dos elementos do elenco alarga-se aos personagens que estes interpretam. Veja-se o caso de Lee Sun-kyun, um cineasta em "Oki's Movie" e em "Nobody's Daughter Haewon", formando um personagem típico dos filmes de Hong Sang-soo, um elemento ligado às artes, que bebe mais do que a conta, tem relações problemáticas com as mulheres e uma visão muito particular sobre a arte. Hong Sang-soo não se interesse pelos indivíduos bem sucedidos na vida, não quer mostrar o glamour do seu país, pelo contrário, este parece encontrar prazer em expor os pequenos pormenores do quotidiano, diminutos pedacinhos de vida que se acercam do ecrã e tomam as nossas mentes durante cerca de hora e meia. Um exemplo desses personagens falhados é Kim Seong-nam, o protagonista de "Night and Day", um pintor obscuro, que sai da Coreia do Sul em direcção a Paris devido a ter medo de ser preso por ter fumado marijuana, um crime grave, sobretudo porque outros elementos que estavam com ele foram detidos e podem denunciar o seu acto. Em Paris este depara-se com um quotidiano distinto, mas também uma relação complicada com as mulheres, tendo a sua mulher grávida na Coreia embora se apaixone pela jovem Lee Yoo-jeong. Este não sabe o que quer, tem um fetiche por pés, protagoniza uma cena de sexo típica dos filmes do cineasta, é marcado por desejos incontroláveis e pouco pragmatismo, protagonizando uma cena de um sonho inesperado que é paradigmática de algumas das obras de Hong Sang-soo, onde os personagens sonham de rompante e só posteriormente nos apercebemos desta situação, algo que acontece também em "In Another Country", "Nobody's Daughter Haewon", entre outros. Estes dois últimos filmes citados marcam também as primeiras obras em que Hong Sang-soo dá protagonismo a sério às mulheres, bem como em "Our Sunhi". No primeiro caso, o destaque vai para três personagens interpretadas por Isabelle Huppert, a primeira vez em que Sang-soo trabalha com uma estrela internacional, com esta a interpretar três mulheres distintas, com ambas a procurarem na Coreia do Sul um rumo para a sua vida. Haewon, a personagem a quem Jun Eun-chae dá vida, é uma jovem sem rumo aparente para a sua vida, que quer ser actriz, lida com uma relação falhada com um homem casado e sonha imenso. Sunhi é um mistério por revelar, reunindo-se separadamente com o ex-namorado, o amigo deste e um professor da universidade e despertando sentimentos amorosos em todos, que pensam conhecer bastante bem a sua "Sunhi", mas na realidade esta pouco se dá conhecer. Huppert, Jun Eun-Chae e Jung Yoo-Mi interpretam as personagens deste trio de filmes, onde Hong Sang-soo procura explorar a personalidade das mulheres e os seus sentimentos, sempre com enorme subtileza.

 Não é que antes Hong Sang-soo não desse atenção às mulheres, mas estas nunca chegavam a tomar verdadeiramente as rédeas da narrativa. Em "The Day a Pig Fell into the Well" tínhamos Bo-kyung, uma mulher casada que tinha um caso com Hyo-sub, um escritor falhado, e Min-jae, uma mulher com vários trabalhos, que nutre uma paixão não correspondida por este último, embora o personagem interpretado por Kim Eui-sung até aceite dinheiro da mesma. Ambas estão muito ligadas à figura masculina, embora a narrativa fragmentada de "The Day a Pig Fell into the Well", a primeira obra do cineasta, não se centre exclusivamente nas mesmas, tal como não o irá fazer em "Virgin Stripped Bare by Her Bachelors", embora até conte a história em parte pelo ponte de vista de Soo-jung (Lee Eun-ju). Temos ainda um papel de relevo das mulheres em "Woman on the Beach", mas nada que se pareça com as duas obras citadas. "In Another Country" e "Nobody's Daughter Haewon", tal como o recente "Our Sunhi", que vêm ainda rechaçar a ideia de que Hong Sang-soo é um cineasta algo misógino na representação da mulher, subjugando-a muitas das vezes ao homem, algo que até acontece em obras como "The Day He Arrives", mas não deixa de ser uma adjectivação algo pesada para o que realmente acontece nas obras do cineasta. Se as mulheres têm alguma relevância nas obras, o mesmo se pode dizer do território da Coreia do Sul, com excepção de "Night and Day", que se desenrola em Paris, sendo um personagem importante das obras do realizador. O território primordial da narrativa não consiste apenas nos grandes espaços citadinos, como acontece em "Virgin Stripped Bare by Her Bachelors", “The Day He Arrives”, "Our Sunhi", entre outros, mas também nos espaços do interior, geralmente rodeados por praia e mar, onde os personagens procuram refúgio, alguma definição para o seu futuro ou alguma mudança nas suas vidas. "In Another Country" é um exemplo paradigmático desse refúgio, com as três personagens de Huppert a procurarem algo de distinto para as suas vidas, um pouco como acontece em "On the Occasion of Remembering the Turnign Gate", "Woman on the Beach", entre outros, onde a praia até surge como um elemento recorrente. Os locais junto ao mar podem ser territórios de refúgio para os personagens, mas quem não se pretende refugiar de nós é Hong Sang-soo, que exerce a sua presença de forma paradigmática, jogando com a nossa noção de tempo enquanto nos apresenta os seus personagens e nos confunde. Veja-se em "Virgin Stripped Bare by Her Bachelors", que nos coloca perante os acontecimentos da narrativa de forma algo desordenada, ou "Ha Ha Ha", que nos coloca perante dois personagens a beberem convulsivamente e a apresentarem as histórias que viveram Tongyeong, de forma separada, embora até estivessem no mesmo local, ao mesmo tempo e conhecido personagens em comum. 

 Este jogo apresentado por Hong Sang-soo com o tempo, os sonhos que surgem sem aviso (basta um pequeno cachecol para percebermos que algo está fora do local), a narrativa fragmentada, para além das repetições de momentos e espaços do enredo (veja-se por exemplo "The Day He Arrives", onde o protagonista encontra esporadicamente uma actriz com quem trabalhou no passado, algo que serve para o colocar em confronto com a sua vida de outrora), expõe e muito a forma como o cineasta por vezes nos desafia. Não é só por estas razões que Hong Sang-soo nos desafia, é também por nos tirar da nossa zona de conforto, de interpretar os seus filmes, de nos fazer reflectir, de nos obrigar a estar atentos, compelindo-nos a ver as suas obras mais do que uma vez e mesmo assim termos a certeza que a relação com as mesmas será diferente, tal como o seu protagonista anunciara em "Oki's Movie". Nam, o protagonista de "Oki's Movie" apresenta várias semelhanças com o personagem principal de "Like You Know It All", um realizador pouco popular junto do público, que vê um dos espectadores dizer que este não é um realizador, mas sim um filósofo. Hong Sang-soo não será um filósofo, mas mostra interesse em problematizar as relações humanas, em expor o homem e a mulher coreana, em dar as suas visões de cinema. Nesse sentido, quase todos os realizadores apresentados nas obras de Sang-soo como protagonistas são cineastas independentes, algo fracassados junto do público, como Goo Kyeong-nam, o protagonista de "Like You Know It All". Neste filme Hong Sang-soo vai ainda mais longe, ironizando com os festivais de cinema, as retrospectivas a cineastas que pouco fizeram para merecer, as caçadoras de oportunidades, entre outros elementos. As obras de Hong Sang-soo formam assim um corpo coeso, marcado por temáticas e elementos em comum, onde este mostra ser um autor e não um mero tarefeiro pronto a dar-nos narrativas explicadinhas de uma ponta à outra. Nestas obras, as relações humanas são representadas com enorme realismo e alguma delicadeza, por vezes com algum humor (muitas das vezes negro), algum drama, muitos personagens falhados e beberrões, homens e mulheres que falham, incapazes de cumprirem aquilo a que se propõem, se é que muitas das vezes têm algum destino definido para as suas vidas. Os filmes do cineasta coreano por vezes não parecem ter rumo, com o interesse a estar muitas das vezes nos diálogos improvisados dos seus personagens, remetendo para uma ideia de cinema onde o papel do actor é muítissimo relevante, contribuindo para a construção e concepção do mesmo. Esta improvisação surgiu sobretudo a partir de "Ha Ha Ha", como o cineasta salienta ao Han Cinema: "I'm inducing myself to do different things. From my debut to third movie, I wrote out everything down to the script. Then "Turning Gate" was the first movie I shot with just a treatment. But after filming "Ha Ha Ha", I told people that I want to stop going with the method of thinking everyday over a treatment. I had the strong desire to use a different method".

 Não são apenas os personagens de Hong Sang-soo que são complexos, também este surge como uma figura algo peculiar no mundo cinematográfico, onde até entrou de forma aparentemente extemporânea, como salienta em entrevista ao Mubi: "It was an accident. I met this guy, he was drunk. He said that I might be good for the theater. I didn’t have any plan at that moment. I returned to my room that night and thought seriously about it. So I prepared, got into the university… But when I got there, and I joined the theater department, I didn’t like the senior students. They always asked me to do things I didn’t want to do. I looked around and I saw cinema students, they were quiet, more independent in spirit… and they didn’t have to work all together like in the theater department. So I switched to cinema". Hong Sang-soo partilha não só esta complexidade com os personagens, mas também o gosto pelas bebidas alcóolicas, como salienta na mesma entrevista ao Mubi: "I don’t have a hobby! The only thing is that I drink. But even these days I drink less than I used to. Now I drink twice a week, before it was five, six times…every night from like 8pm to 2am…". Ficamos assim com a certeza de estarmos perante pequenos pedaços de Hong Sang-soo reflectidos nos seus personagens, com estes a serem impulsivos, a terem uma visão muito particular da arte, a não apreciarem lá muito o ambiente de festivais de cinema, a beberem em demasia, ou seja existe todo um cunho muito autoral em tudo o que o cineasta cria. Entrar no mundo cinematográfico de Hong Sang-soo é assim algo de distinto, gerador de paixões e ódios, de poucos meios termos e muita interpretação, de discussão sobre tudo e sobre nada, onde nos revemos em alguns dos seus personagens e acontecimentos. Não é por serem falhados, até porque todos nós falhamos, os personagens de Sang-soo mais do que a conta, mas pelo caminho lá nos apaixonam para a singularidade dos trabalhos que protagonizam. Este estreou-se na realização cinematográfica com “The Day a Pig Fell into the Well”, originalmente lançada em 1996, quando tinha 35 anos e terminado o seu mestrado na School of the Art Institute of Chicago, cumprindo o desejo da sua protagonista de “Our Sunhi”, estudar nos EUA e aperfeiçoado a sua arte de realizar filmes. Após “The Day a Pig Fell into the Well”, este realizou até ao momento mais catorze longas-metragens, que foram analisadas individualmente neste espaço e podem ser lidas nos seguintes links:

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