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Resenha Crítica: "Lolita" (1962)

sábado, 25 de janeiro de 2014

 Humbert Humbert (James Mason): "What drives me insane is the twofold nature of this nymphet, of every nymphet perhaps, this mixture in my Lolita of tender, dreamy childishness and a kind of eerie vulgarity. I know it is madness to keep this journal, but it gives me a strange thrill to do so. And only a loving wife could decipher my microscopic script". Esta citação exemplifica particularmente bem a obsessão que o professor Humbert desenvolve por Dolores Haze (Sue Lyon), mais conhecida por Lolita, a filha adolescente de Charlotte Haze (Shelley Winters), a sua inquilina e futura mulher, uma viúva algo neurótica que se apaixona pelo personagem interpretado por James Mason. Lolita, ou Lo, como muitas das vezes a tratam, é uma jovem de catorze anos algo impertinente, que dá ares de rapariga mais velha embora a sua personalidade não esconda alguma infantilidade, enquanto coloca a cabeça em água à sua mãe e desperta a atenção de Humbert. Este nem era para ter alugado um quarto na espaçosa casa de Charlotte, mas a presença de Lolita no jardim logo desperta a sua atenção, com o protagonista a formar uma ligação forte com esta, embora pouco explícita no ecrã, visto que as regras do Código Hays ainda em vigor não permitiam grandes veleidade, algo que conduziu a que Stanley Kubrick apostasse nas subtilezas e nos símbolos, explorando os innuendos sexuais de forma a ultrapassar as restrições e dar algum mistério a esta relação. Veja-se o Camp Clímax ou falas como "Dick's very sweet", quando Lolita fala sobre o seu marido, entre muitos outros exemplos subtis, de uma das obras maiores de Stanley Kubrick, onde este nos coloca perante um drama marcado por obsessões e desejos, conseguindo tornar credível o bizarro romance entre Lolita e o seu padrasto ao longo desta adaptação cinematográfica da obra literária homónima de Vladimir Nabokov. Kubrick até começa por nos dar o final do filme, apresentando-nos a uma cena intensa, brutal e mortal entre Humbert e Clare Quilty (Peter Sellers), um argumentista de programas televisivos, com a narrativa posteriormente a recuar quatro anos, quando o personagem interpretado por James Mason chega a Ramsdale, em New Hampshire, onde pretende passar o Verão.

 Associada ao calor, esta estação prepara-se também para trazer sentimentos quentes ao protagonista, cuja obsessão pela filha da sua senhoria promete transformar a sua vida num reboliço emocional. Humbert até começa por formar uma relação com Charlotte, embora a despreze como poderemos mais tarde perceber quando esta lê pedaços do seu diário ou quando o protagonista pensa no homicídio perfeito, algo que não tem de colocar em prática pois esta logo morre atropelada por um carro. Com Lolita a seu cargo, Humbert procura esconder de tudo e todos a relação de afecto com a menor e até algo incestuosa (se tivermos em conta que é o padrasto da rapariga), desenvolvendo uma crescente obsessão e paranóia em relação a esta, que apenas poderá terminar da pior maneira, sobretudo quando Clare Quilty se mete no seu caminho. Quilty depara-se pela primeira vez com Lolita, Humbert e Charlotte quando esta última aborda o argumentista, que mais tarde se vai disfarçar de elemento da polícia e até de psicólogo da escola de Lolita, com Peter Sellers a expor a sua versatilidade e enorme talento, algo que posteriormente viria a repetir com Stanley Kubrick em "Dr. Strangelove or: How I Learned to Stop Worrying and Love the Bomb". Seja como elemento ao serviço da polícia que gosta de fingir que é um homem comum, seja como o argumentista refinado, Peter Sellers convence e deixa a germinar o seu futuro Dr. Strangelove em Dr. Zempf, ou melhor, Quilty mascarado de psicólogo com sotaque alemão que aborda as temáticas sexuais de forma liberal e algo constrangedora para o protagonista. O secundário Sellers não ofusca o convincente James Mason e uma surpreendente Sue Lyon, mas nem por isso deixa de provar que foi um dos actores mais talentosos da sua geração. A Mason coube interpretar um dos papéis mais delicados do filme, o intelectual Humbert, um indivíduo que reprime um monstro, ou não fosse este um homem obcecado por uma jovem adolescente, que no livro até tinha uma idade bem menor dos que os dezasseis anos de Lolita. 

Embora "Lolita"não nos exiba nada de demasiado gráfico da relação entre a personagem do título e Humbert, também não deixa de ser evidente que Kubrick explora toda a estranheza e clima de perdição inerente a esta relação proibida, algo exposto não só pelo eficaz argumento de Vladimir Nabokov, Kubrick e James Harris, mas também pelas imagens em movimento, sobressaindo mais uma vez o meticuloso trabalho de fotografia. Essa perdição associada à relação entre Lolita e Humbert é particularmente visível quando encontramos os seus corpos banhados por sombras que dão o formato das barras de uma cela, concedendo à obra uma atmosfera noir, onde os personagens de carácter ambíguo e valores imorais permeiam a narrativa. A própria Lolita está longe de ser um exemplo de moralismo, revelando-se uma jovem algo dissimulada, que procura fazer sobressair os seus desejos sobre tudo e todos, acabando por se intrometer na relação da mãe com Humbert, algo que agrada e muito a este último. Uma das cenas que melhor retrata o quão mal parece todo este triângulo entre um quarentão, uma viúva e a sua filha desenrola-se na sala de cinema, quando Humbert retira a mão de junto de Charlotte e a junta às da filha desta, com a personagem interpretada por Shelley Winters a envolver também as suas, com as seis mãos a ficarem juntas. Está aqui presente uma relação complexa, onde temáticas como obsessão, desejo sexual, pedofilia e traição são abordadas, com Stanley Kubrick a inteligentemente desenvolver toda esta relação de forma gradual, dando tempo para os personagens serem desenvolvidos e exporem as suas personalidades, deixando a relação de Lolita com Humbert tornar-se credível, até estes dois viajarem por distintos locais dos Estados Unidos da América. As viagens servem para explorar a crescente intimidade entre os personagens interpretados por James Mason e Sue Lyon, mas também para expor tudo aquilo que os separa, não faltando os elementos de paranóia proporcionados por um carro que os segue e algumas reviravoltas surpreendentes.

 Se Stanley Kubrick desenvolve paradigmaticamente esta relação proibida, marcada por momentos subtis que sugerem mais do que demonstram, o mesmo não acontece com a relação de Lolita com as colegas ou até a sua vida escolar, tendo na peça de teatro um momento revelador da procura da jovem em desafiar a autoridade paternal. A procura de Lolita em contrariar aqueles que colocam barreiras nos seus sentimentos e pensamentos é algo visível desde logo na sua relação complexa com a mãe, com esta última a mostrar algum ressentimento para com o rebento. Lolita é interpretada por Sue Lyon, uma jovem que durante as filmagens tinha cerca de catorze anos de idade, embora pareça mais velha, convencendo-nos como esta adolescente algo mimada, que desperta os desejos libidinosos de um quarentão algo pervertido. Num dos posters promocionais de "Lolita", podemos encontrar a questão "How Did They Ever Make a Movie of Lolita?", uma pergunta que Kubrick responde com uma adaptação cujas alterações em relação à obra original não deixam de resultar num filme algo polémico, marcado por alguma tensão emocional e sexual, algum erotismo e até humor negro, onde o cineasta consegue ser capaz de retirar muito do que bons actores como Peter Sellers e James Mason tinham para lhe dar, bem como Shelley Winters e Sue Lyon. No entanto, não deixa de ser algo notório que ao alterar a idade da protagonista de doze anos, como no livro, para cerca de dezasseis anos (encontra-se na escola secundária) permite manter o factor de choque, mas esbate-o, embora estejamos em ambos os casos perante um desejo marcado por pedofilia da parte do protagonista, com "Lolita" a ser capaz de expor a estranheza causada por todo este caso. Stanley Kubrick pode não ter conseguido explorar toda a sexualidade inerente à relação proibida entre Lolita e Humbert, mas nem por isso deixou de realizar um drama emocionalmente intenso, marcado por ávidas obsessões e desejos proibidos.

Título original: "Lolita".
Realizador: Stanley Kubrick. 
Argumento: Vladimir Nabokov e Stanley Kubrick.
Elenco: James Mason, Shelley Winters, Sue Lyon, Peter Sellers. 

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