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Resenha Crítica: "Godzilla" (1998)

sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

 Por vezes quando um aparatoso acidente de viação acontece, é possível encontrarmos um grande amontoado de pessoas curiosas com o acontecimento. O interesse que "Godzilla" de Roland Emmerich começa por nos despertar passa exactamente por aí: temos um filme tão devastado pela crítica que cedo ficamos curiosos por saber as "causas" deste acidente. Embora não seja uma obra-prima e esteja longe de apresentar um argumento coerente e bem construído, "Godzilla" é o paradigma da procura constante de Roland Emmerich em partir e destruir tudo, num filme que pede constantemente para desligarmos o nosso lado mais pragmático. Desta vez, a destruição do filme de Emmerich não vem de invasores extraterrestres ou fenómenos naturais, mas sim de Godzilla, o célebre monstro que protagonizou mais de uma dezena de filmes japoneses e tem em "Godzilla", o primeiro filme norte-americano, com o cineasta a colocar o célebre monstro em plenos EUA. Tudo começa quando a radiação proveniente dos testes nucleares junto do Pacífico, na Polinésia Francesa, conduz a que o território conheça profundas alterações e um réptil colossal surja desse acontecimento. A presença deste monstro de grandes proporções é exposta nas enormes pegadas encontradas no Panamá, um local para o qual é destacado Niko "Nick" Tatoupolos (Matthew Broderick), um cientista especializado em estudar os efeitos da radiação nas espécies. Escusado será dizer que Godzilla não se vai ficar pelo Pacífico e pelo Panamá e logo vai atacar os Estados Unidos da América, em particular, Manhattan, algo que vai conduzir as autoridades militares a terem de procurar travar o monstro gigante. No meio dos militares está Nick, que logo procura engendrar um plano para capturar Godzilla, que passa por reunir toneladas de lixo e atrair o monstro gigante, uma tarefa que se revela complicada, com a mítica figura a deixar um rasto de destruição. Godzilla ainda vai voltar a atacar o solo yankee e dar várias dores de cabeça aos personagens, enquanto Nick reencontra-se com a sua ex-namorada (Lucy Palotti) e protagoniza uma relação sem química com esta, que é paradigmática dos muitos problemas que o argumento deste filme tem em dar profundidade aos seus personagens e aproveitar devidamente o elenco. Nomes como Jean Reno, Hank Azaria, Kevin Dunn raramente são aproveitados, surgindo como um conjunto de clichés ambulantes, enquanto interpretam um suposto responsável por uma companhia de seguros, um repórter fotográfico e um coronel, respectivamente, três personagens entre os muitos elementos que não são devidamente desenvolvidos ao longo de um filme que tem o seu maior foco na destruição.

 "Godzilla" conta com uma série de problemas, mas o mais visível é aquele que afectou várias das sequelas do filme original no Japão. Perdeu-se aquela paranóia relacionada com a ameaça nuclear simbolizada por Godzilla e ficou apenas o monstro destruidor. É verdade que Godzilla é um monstro carismático, mas sem uma história interessante e forte que o integre, torna-se apenas mais uma criatura demolidora. Roland Emmerich falha nesse quesito de criar uma história minimamente interessante e coerente, colocando as experiências nucleares como um mero pretexto para apresentar o monstro, enquanto nos deixa perante uma história pouco elaborada, recheada de personagens pouco desenvolvidas e unidimensionais, subtramas por desenvolver, explicações cientificas infantis e um protagonista pouco carismático. Matthew Broderick não é um actor brilhante, mas em "Godzilla" nota-se que procura fazer o que pode, enquanto interpreta o típico personagem que é colocado perante uma situação inesperada e tem de ser o herói do dia, o problema é que nunca chega a convencer e entusiasmar, em boa parte graças ao argumento (e na outra parte à sua falta de talento). Se o argumento de "Godzilla" não entusiasma, nem a sua história, o mesmo não se pode dizer dos seus efeitos especiais, que eram eficazes para a época e nos dias de hoje continuam relativamente credíveis, ajudando a criar uma aura ameaçadora à volta de "Godzilla", embora seja comum repararmos que a dimensão (e por vezes o aspecto) do personagem nem sempre seja o mesmo. No entanto, efeitos especiais competentes e boas cenas de acção não chegam para fazer um bom filme e "Godzilla" é a prova disso (uma crítica que podemos estender para boa parte da carreira de Emmerich), ao contar com uma história pouco elaborada, um protagonista nada carismático e um Godzilla que não destrói o filme mas confere-lhe um apelo que gera a curiosidade para vermos a obra e procurarmos a todo o custo gostar da mesma, embora Roland Emmerich procure constantemente fazer o contrário ao pegar num monstro clássico da história do cinema e desenvolver uma película que roça a mediocridade. Não devemos vir com paternalismos e dizer que todos os filmes japoneses da saga "Godzilla" eram clássicos inesquecíveis, pois a franquia conta com alguns filmes péssimos, mas Emmerich tinha condições e orçamento para muito mais, desperdiçando uma hipótese de ouro para desenvolver uma nova saga cinematográfica do popular personagem. É verdade que a porta ficou aberta, mas nem um resultado de bilheteira relativamente positivo salvou este filme marcado por más decisões, onde Roland Emmerich não perde uma oportunidade de satirizar Roger Ebert, através da figura do Mayor Ebert, um personagem com características física semelhantes ao crítico, um feitio arrogante e que no final é criticado com um "thumbs down", algo que é simplesmente ridículo e revelador do mau gosto que permeia "Godzilla". Sem personagens dignos de interesse, muitos plot holes e um argumento tépido, "Godzilla" revela-se um filme fraco de ideias, que destrói gradualmente as nossas esperanças em encontrar nesta película uma obra de ficção-científica acima da média, enquanto o célebre monstro apela constantemente a que não desistamos do mesmo.

Título original: "Godzilla".
Realizador: Roland Emmerich.
Argumento: Roland Emmerich e Dean Devlin.
Elenco: Matthew Broderick, Jean Reno, Maria Pitillo, Hank Azaria, Kevin Dunn, Michael Lerner, Harry Shearer. 

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