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Resenha Crítica: "A Bittersweet Life"

sábado, 18 de janeiro de 2014

 "A Bittersweet Life" coloca-nos perante um filme de gangsters habilmente construído, com uma fotografia marcada por uma elegância rara para os filmes do género, enquanto nos apresenta a um gangster aparentemente frio e impiedoso, que tem num raro acto de compaixão o estertor para a sua caída em desgraça. Kim Sun-woo (Lee Byung-hun) é um gangster e homem de confiança de Kang (Kim Yeong-cheol), um impiedoso e frio chefe do crime, que designa o primeiro para vigiar Hee-soo (Shin Min-ah), a sua namorada, desconfiando que esta tem um amante. A elegância com que "A Bittersweet Life" é filmado é exposta desde logo na primeira representação de Hee-soo, com a câmara a focar-se primeiro nos seus pés enquanto esta se calça, até gradualmente indo subir e mostrar a sua bela fisionomia, que parece causar alguma atracção junto do protagonista. O primeiro contacto entre Kim e Hee-soo é efectuado quando este entrega uma prenda a mando de Kang, tendo ainda de a espiar secretamente enquanto o chefe está fora durante três dias em Xangai, a tratar de negócios. Inicialmente Kim espia Hee-soo, mas posteriormente acaba por continuar a manter contacto verbal com esta, deixando-se encantar pela sua habilidade para tocar violino, enquanto tenta gerir os negócios do seu superior e lidar com Baek Jr. (Hwang Jung-min), o filho de uma família de gangsters rival, cujos elementos vão protagonizar com o protagonista alguns momentos de enorme violência. Pelo meio, temos ainda o clube nocturno de Kang, um espaço aparentemente sofisticado, que no último da narrativa será terço palco de tiroteios violentos, com as suas tonalidades vermelhas a conjugarem-se na perfeição com o sangue que jorra dos corpos. Esta violência surge na consequência de um acto de compaixão e atracção de Kim: encontra a namorada do chefe com um amante, mas não a mata. A descoberta da traição conduz Kang a mandar torturar Kim, que quase entre a vida e a morte se consegue salvar e preparar uma fria vingança. A espaços Kim traz à memória os gangsters de Takeshi Kitano, aparentemente impassiveis, pouco dados à demonstração de sentimentos e afectos, de poucas falas mas contundentes, numa obra com traços noirs, marcada por um universo narrativo recheado de ambiguidades, onde não faltam as sombras a simbolizar prisão e opressão, e o protagonista que claudica perante a sua femme fatale. 

Hee-soo nem chega a ter um relacionamento amoroso com Kim, mas a sua presença gera neste algo de inexplicável, que o conduz a pela primeira vez desobedecer às rígidas regras e códigos da máfia, salvando a vida da bela personagem interpretada por Shin Min-ah. Esta é uma mulher sedutora, que procura livrar-se das amarras do namorado, parecendo ser o elemento mais frágil de um filme marcado pelos cenários nocturnos e a violência, onde a morte é exposta com algum lirismo e brutalidade, adornada por uma banda sonora por vezes encantadora, que contrasta e em simultâneo exacerba todo este ambiente tenso. Mérito para o realizador Kim Jee-woon, que tem aqui um sólido exemplar dos bons filmes de acção e thrillers oriundos da Coreia do Sul, explorando um argumento aparentemente simples e as características do seu protagonista para criar uma história de vingança tensa, violenta, sem contemplações e falsos moralismos. A Coreia do Sul que nos é apresentada não é um território dado a sonhos ou finais felizes, mas sim a conflitos entre criminosos e violência, destacando-se particularmente a cena à chuva, em que o protagonista é enterrado vivo e se consegue soltar do interior da lama. No meio deste cenário marcado pelo crime sobressai Kim, um indivíduo regido por valores de lealdade que num momento são quebrados, entrando numa onda de violência visceral que contrasta com algum lirismo das imagens em movimento, com alguns planos a serem capazes de transformarem a morte em algo de bizarramente belo. Kim é um personagem trágico, que parece nunca ter amado ou sentido alegria, sendo conhecido por ser uma máquina de matar ao serviço do seu superior e pouco mais do que isso. Este vive num mundo marcado pelo crime, onde a morte parece o destino mais provável e as disputas entre gangs uma realidade. Kim Jee-woon não tem problemas em deixá-lo perante a morte. No final, sabemos que nada de bom lhe parece estar destinado, deixando-nos apenas o desejo de o ver a cumprir a sua vingança e atingir a sua paz interior. Filme de gangsters violento e tenso, "A Bittersweet Life" coloca-nos perante um conjunto de cenas de acção bem coreografadas e um protagonista pronto a cumprir a sua vingança, mesmo que isso lhe custe a sua vida, tendo em Lee Byung-hun um intérprete à altura da ambição deste bom exemplar do currículo de Kim Jee-woon.

Título original: "Dalkomhan insaeng".
Título em inglês:  "A Bittersweet Life".
Título em Portugal: "Doce Tortura".
Realizador: Kim Jee-woon.
Argumento: Kim Jee-woon.
Elenco: Lee Byung-hun, Kim Yeong-cheol, Shin Min-ah, Hwang Jung-min, Kim Roe-ha, Lee Gi-yeong.

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