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Resenha Crítica: "Chinese Box"

domingo, 19 de janeiro de 2014

 Composto por amores impossíveis, um território de Hong Kong em ebulição, cenários exóticos e uma história aprazível, "Chinese Box" é uma "caixinha de surpresas" da qual não sai a mais bela das músicas mas sim um agradável pedaço de cinema, onde Jeremy Irons surge em bom nível, acompanhado por duas actrizes de enorme talento, Gong Li e Maggie Cheung. Realizado por Wayne Wang, tendo como base o livro "Kowloon Town", "Chinese Box", tem como pano de fundo a transição de Hong Kong da administração britânica para a administração Chinesa, na passagem de ano para 1997, no qual, a 1 de Julho, Hong Kong passa a estar sob a soberania chinesa. Esta transição é vista pelo protagonista como um Vesúvio prestes a explodir, com Hong Kong a estar quase a transformar-se numa Pompeia, um local fervilhante cujo futuro é marcado por grande incerteza, um ambiente eficazmente transmitido logo no início do filme quando um estudante se suicida devido ao "fim da liberdade". É neste ambiente que encontramos John (Jeremy Irons), um jornalista britânico que descobre padecer de leucemia. Perante esta noticia, John decide demitir-se do trabalho, aproveitar os seus possíveis últimos dias, procurar o amor impossível com Vivian (Gong Li), observar o território em mudança e as suas subtilezas, tenta entrevistar uma estranha problemática (Maggie Cheung) que o intriga, enquanto a câmara de filmar tem o condão de nos deixar fascinados com este local e exibir algumas das razões para o protagonista se ter apaixonado por Hong Kong. Mais do que apenas desenvolver a história do protagonista, "Chinese Box" procura explorar tudo o que o rodeia ao longo de pequenos episódios que se vão desenrolando junto de nós. O território está marcado por uma grande incerteza, algo que é exemplarmente demonstrado ao longo do filme, com John a simbolizar essa transição, conjugando na sua pessoa uma nostalgia relacionada com o passado ligado ao domínio britânico, uma vinculação que está prestes a terminar no presente, tal como a sua vida. Por sua vez, Vivian procura ser amada por Chang, um poderoso empresário que se recusa a casar com a personagem interpretada por Gong Li devido aos preconceitos sociais que envolvem o passado desta como prostituta (foi nestes tempos que John a conheceu, em Xangai), algo que é praticamente ignorado por John, um ocidental associado a uma mentalidade mais aberta. Temos ainda Jean (Maggie Cheung), uma vendedora ambulante desfigurada em parte da sua face, que conta com um passado problemático, cuja figura e personalidade logo atraem John para fazer uma reportagem sobre esta mulher, um espírito tão irrequieto como esta Hong Kong em mudança. Esta é o protótipo da mulher algo desenrascada da nova Hong Kong, distinta da submissão de Vivian, com a personagem interpretada por Gong Li a surgir como uma mulher sonhadora, que imita Marlene Dietriech a cantar "Black Market", encanta os homens, mas não parece conseguir ser independente.

 No centro do filme está John. Este padece de leucemia e procura conquistar o coração de Vivian, uma relação aparentemente fadada ao fracasso devido ao seu estado de saúde e ao facto desta rejeitar os seus avanços. John conta ainda a espaços com a companhia de Jim (Rubén Blades), o seu amigo, um fotógrafo que partilha com este alguns diálogos e inquietações. A doença conduz a que John se aventure com a câmara de filmar por Hong Kong, com o território a surgir não só como o cenário no qual os personagens se movem, mas também como protagonista, sendo um dos elementos de maior influência na narrativa. A sociedade de Hong Kong, a sua cultura, o seu momento de mudança, as suas ruas, os seus mercados, os armazéns precários, os clubes nocturnos (veja-se o local de trabalho de Vivian), a incerteza que "pairava pelo ar" na época retratada (exemplarmente demonstrado nos elementos dos media, tais como o jornal que conta na capa com a notícia que a China pretende alterar 14 leis de Hong Kong), são elementos fulcrais de um enredo que surge acompanhado por um bom trabalho de fotografia que consegue expor estas matizes do território e de um argumento eficaz a cativar a nossa atenção. Vale ainda a pena realçar o mérito de Wayne Wang, um cineasta oriundo de Hong Kong que realizou pela primeira vez uma obra sobre o seu território de origem, que consegue esconder algumas das debilidades do filme com as qualidades do mesmo, onde melodrama em volta do protagonista e dos personagens secundários é mesclado harmoniosamente com os elementos culturais e sociais de Hong Kong. Tudo é apresentado de forma simples, por vezes até demais, sem existir grandes problematizações nas questões políticas, com "Chinese Box" a parecer quase sempre estar mais preocupado em nos apresentar o sabor do momento, as inquietações dos habitantes de Hong Kong, os seus locais, a ponto de quase "conseguirmos sentir o cheiro do local", ao mesmo tempo que nos apresenta a uma narrativa agradável, capaz de desenvolver a história do protagonista e das duas personagens secundárias. Com a personagem interpretada por Maggie Cheung, John tem uma relação marcada por algum mistério, não sabendo o seu contacto e onde esta mora, deparando-se com uma estranha história contada por Jean na entrevista que lhe concede, protagonizando com a rebelde mulher um momento emocionalmente devastador. Por sua vez, John mantém uma relação marcada por alguma nostalgia e frustração com Vivian, devido a um amor não correspondido, que foi iniciado no passado, que pode ou não renascer no presente. Gong Li e Jeremy Irons protagonizam alguns dos melhores momentos do filme quando estão juntos, com o actor a expressar paradigmaticamente os sentimentos do seu personagem em relação à mulher amada (por vezes com John a habilmente narrar os seus desejos, sentimentos e acontecimentos), ao longo de uma narrativa agradável, a espaços bastante bela, onde Wayne Wang procura intermitentemente elaborar alguns comentários de pendor político. A certa altura do filme, a câmara de filmar observa atentamente o coração de um peixe a palpitar depois deste ter sido aberto pelo vendedor no mercado. Depois de aberto, que é como quem diz, ter sido visto e revisto, o coração de "Chinese Box" continua a palpitar, a bater fortemente junto de nós e a chamar-nos para o interior desta caixinha surpreendente, que conta com algumas imperfeições, mas imensas qualidades.


Título original: "China Box".
Realizador: Wayne Wang.
Argumento:  Jean-Claude Carrière, Larry Gross, Wayne Wang.
Elenco: Jeremy Irons, Gong Li, Maggie Cheung, Rubén Blades.

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