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Resenha Crítica: "The Day He Arrives"

sábado, 11 de janeiro de 2014

 Seong-joon (Yoo Jun-sang) é um realizador de cinema que deixou de realizar filmes e vive numa pequena cidade, que chega a Seul, em particular a Buckchon, tendo em vista a encontrar-se com Young-ho (Kim Sang-joong), um crítico de cinema e amigo deste, que vive no local. Perante o facto do amigo não atender temporariamente as suas chamadas, Seong-joon decide vaguear pelas ruas, onde encontra uma actriz com quem trabalhara. Posteriormente, Seong-joon decide ir até um bar para beber makgeolli (vinho de arroz), onde é chamado para a mesa por três estudantes de cinema que o reconhecem, partilhando com estes alguns diálogos de ocasião até ter um momento intempestivo para com estes e decidir ir até à casa da sua ex-namorada, Kyung-jin (Kim Bo-kyung), que já não via há dois anos, quando a abandonou. O momento é tenso e marcado por uma nova despedida, comprovando aquela ideia de que raros são os personagens que conseguem ser felizes na vida amorosa, desconstruindo o ideal de homem sul coreano e mostrando-o com todas as suas falhas e obsessões. No dia seguinte, Seong-joon finalmente encontra-se com Young-ho, bem como com Bo-ram (Song Seon-mi), uma professora universitária amiga deste, com o trio a ir a um bar chamado de "Novel", no qual conhece Ye-jeon, a empregada do bar, que apresenta semelhanças gritantes com a sua ex-namorada (ou não fosse interpretada pela mesma actriz). A relação de Seong-joon e Ye-jeon é marcada pela obsessão do primeiro pela mulher que desperta o seu desejo, embora não pareça pretender grandes compromissos, estando tudo muito mais no campo sexual do que no romance e amor mútuo, com esta a fazê-lo recordar uma relação passada. Seong-joo reencontra ainda Joong-won (Kim Eui-seong), um actor que trabalhou consigo e guarda algum ressentimento pelo realizador o ter preterido para um colega mais conhecido, tendo em vista a satisfazer os desejos dos seus produtores. Temos ainda a presença de uma actriz que surge ocasionalmente no caminho do protagonista, que integrou o elenco de um filme do realizador. A presença desta mulher remete para um recordar dos passado de Seong-joo como realizador, com este a ter de confrontar constantemente o seus feitos anteriores a partir do momento em que chega a Seul. Ao longo dos cerca de oitenta minutos de duração da narrativa de "The Day He Arrives" muito e pouco acontece, com Hong Sang-soo a jogar mais uma vez com as nossas concepções de tempo e a colocar-nos perante uma história tão tipicamente sua, onde os diálogos surgem sublimes e profundamente humanos e o seu protagonista desconstrói-se junto de nós.

 Analisando num todo é praticamente impossível não vermos algumas semelhanças entre as obras de Hong Sang-soo, e "The Day He Arrives" não é excepção. Veja-se que não falta a presença de um artista como protagonista, no caso um realizador algo incompreendido, algo que acontecera em obras como "Virgin Stripped Bare by Her Bachelors", "Woman is the Future of Man", "Woman on the Beach", "Like You Know it All", "Hahaha", "Oki's Movie"; a desconstrução do homem coreano onde não falta a relação sexual meio estranha (protagonizada com a ex-namorada), o protagonista movido por desejos, elementos que encontrávamos em "The Day a Pig Fell into the Well", "Night and Day", entre outras das obras já citadas; o consumo de álcool em excesso (todas as longas-metragens de Hong Sang-soo até "Our Sunhi" contam com personagens a beberem em demasia, expondo as suas fraquezas através da bebida; encontramos ainda uma espécie de repetição dos espaços pelos quais o protagonista circula, em períodos de tempo indefinido, com o cineasta a exibir a indefinição que rodeia Seong-joon e o jogo com a nossa noção de tempo, enquanto Hong Sang-soo explora os territórios, cultura e sociedade sul coreanos com a sua visão muito própria, através dos seus personagens. Mais do que uma narrativa claramente coesa, "The Day He Arrives" compartilha uma das forças das obras de Hong Sang-soo de nos querer ver os seus personagens a dialogar, a exporem-se perante nós, com os seus actores a sobressaírem com os seus diálogos em parte improvisados. Um dos nomes em destaque é Yoo Jun-sang, que trabalhara com Hong Sang-soo (o próprio realizador com uma participação especial), em obras como "Like You Know It All" e "Hahaha", que tem neste realizador e professor de cinema um personagem típico das obras do cineasta, espelhando perante nós as suas visões da sua arte (veja-se quando diz que espera que as suas obras venham a ser reavaliadas), do amor e da amizade, tendo uma aversão notória a compromissos, ao mesmo tempo que é obrigado a confrontar o seu passado no dia em que chega a Seul, quer seja com os alunos que o recordam do seu trabalho, quer seja com a antiga namorada que recorda uma relação interrompida, entre outros elementos.

 Quem não parece ter problemas em se comprometer aos seus ideais de realização e cinema é Hong Sang-soo, que nos volta a colocar perante um conjunto de personagens incapazes de cumprir os seus objectivos, numa obra onde voltamos a encontrar os célebres zooms inquietos do cineasta a cortarem os planos fixos, ao mesmo tempo que apresenta alguns elementos distintos dos seus filmes anteriores. Desde logo pelo espaço da narrativa. Apesar do espaço do bar não ser uma novidade nos filmes de Hong Sang-soo, o mesmo não se pode dizer da narrativa se desenrolar maioritariamente em Seul, distinguindo Seong-joon dos personagens das obras anteriores do cineasta que procuravam refúgio ou uma procura de encontrarem algo de novo nas suas vidas em territórios interiores ou costeiros, tais como os protagonistas de "On the Occasion of Remembering the Turning Gate", "Woman on the Beach", entre outros. Vale ainda a pena realçar a menor relevância das personagens femininas em relação a obras como "Woman on the Beach" e "Oki's Movie", com personagens como Bo-ram, Ye-jeon e Kyung-jin a surgirem quase sempre como figuras menores (não quer com isto dizer que não têm importância), de uma narrativa que concentra muito as suas atenções na história de Seong-joon, onde o seu relacionamento complexo com as mulheres também está presente. Diga-se que "The Day He Arrives" marca uma charneira com os futuros trabalhos de Hong Sang-soo, com este a levar a outro nível o interesse das personagens femininas em "In Another Country", "Nobody's Daughter Haewon" e "Our Sunhi", cujas protagonistas são mulheres. Em "The Day He Arrives", o protagonista conta-nos em alguns momentos aquilo que lhe vai na sua mente com a narração em off, é um realizador com apenas quatro filmes realizados mas pouco reconhecimento, um indivíduo comum com futuro incerto, que protagoniza uma obra tão simples como este, marcada por momentos de algum drama, humor, romance, onde Hong Sang-soo expõe mais uma vez o seu estilo quase único, filmando a preto e branco, tal como fizera em “Virgin Stripped Bare by Her Bachelors”, explorando esse elemento em favor da narrativa. Hong Sang-soo não julga os seus personagens, não nos dá uma história complexa nem dá lições para a vida, bem pelo contrário, este apenas pede para que desfrutemos uns momentos com os seus personagens, fazermos parte deste universo muito próprio ao qual já sentimos fazer parte.

Título original: "Book chon bang hyang".
Título em inglês: "The Day He Arrives".
Realizador: Hong Sang-soo. 
Argumento: Hong Sang-soo.
Elenco: Yoo Jun-sang, Kim Sang-joong, Song Seon-mi, Kim Bo-kyung. 

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