Philip Marlowe, o célebre personagem criado por Raymond Chandler, já foi por diversas vezes adaptado ao grande ecrã. Desde Dick Powell, passando por James Garner e Robert Mitchum, até ao brilhante Humphrey Bogart, vários foram os actores que deram vida ao detective, incluindo Robert Montgomery, naquela que foi uma das adaptações cinematográficas mais ambiciosas do popular personagem, nomeadamente, "Lady in the Lake". Montgomery estreou-se na realização com "Lady in the Lake", um filme noir lançado originalmente em 1947, bastante ambicioso e inovador para a época, contando com o seu realizador como intérprete do protagonista, tendo como ponto de partida a obra literária "The Lady in the Lake" de Raymond Chandler. A inovação centra-se no facto de raramente vermos o corpo e o rosto do protagonista, exceptuando na introdução e conclusão, com "Lady in the Lake" a apresentar-nos grande parte da narrativa através do campo de visão do protagonista, com os restantes personagens a olharem directamente para a câmara, praticamente colocando o espectador no lugar do detective. A câmara subjectiva permite ao filme dar uma perspectiva distinta do que estamos a ver nos vários filmes noir dos anos 40, adensando a inquietação em volta do intrincado e perigoso caso que Marlowe tem de resolver. Este é um detective de poucas falas, que pouco ganha com a resolução dos seus casos e decide escrever um conto de espionagem e submetê-lo para aprovação na Kingsby Publications, uma editora especializada em literatura do género. Marlowe é chamado por Adrienne Fromsett (Totter), a editora-executiva, em plena época natalícia, tendo em vista a esta adquirir os direitos sobre a obra e ao mesmo tempo fazer uma proposta para descobrir o paradeiro da esposa do seu patrão, Derrace Kingsby (Leon Ames), que supostamente fugiu com o amante, Chris Lavery (Dick Simmons), há um mês, tendo enviado um telegrama a dizer que ia fugir para o México com este. Esta investigação teria de ser secreta, mas Marlowe recusa inicialmente por temer que a femme fatale pretenda assassinar Crystal Kingsby, tendo em vista a casar-se com o chefe. No entanto, o lado pragmático do detective logo vem ao de cima, com este a acabar por aceitar a missão quando lhe são oferecidos quinhentos dólares (200 pelos direitos do livro mais 300 como entrada para o caso). Perante o aceitar da oferta de trabalho, Marlowe foi visitar Lavery, que foi visto por Fromsett há pouco tempo, algo que confirma que o telegrama é falso. No entanto, o encontro não acaba da melhor maneira, com Lavery a deixar o protagonista inconsciente e colocá-lo como se estivesse alcoolizado, com Marlowe a ser detido, sendo interrogado pelo Capitão Kane (Tom Tully) e o beligerante agente DeGarmot (Lloyd Nolan).
Fora da esquadra, Marlowe descobre que o corpo de Muriel Ches, a esposa do caseiro de Derrace Kingsbey, foi recuperado junto ao lago da propriedade do personagem interpretado por Leon Ames e da sua esposa, algo que conduz a uma série de segredos por revelar, com a identidade da falecida a não ser a pensada e o detective a acabar por trabalhar para o chefe de Adrienne. Tendo de lidar com polícias moralmente corruptos, crimes, reviravoltas, muitos perigos e uma crescente tensão em volta da investigação, Philip Marlowe procura fazer de tudo para solucionar o caso, mostrando os seus dotes como detective e a sua personalidade vincada, enquanto Robert Montgomery realiza com algum engenho esta obra cinematográfica marcada por um ambiente inquietante e personagens de moral dúbia. A começar por Marlowe, um detective de falas curtas, pragmático, interpretado eficazmente por Montgomery, embora o actor apenas apareça no prólogo, conclusão e em cenas com espelhos, tendo em Adrienne uma mulher que desperta em si sentimentos díspares, com Audrey Tattor a sobressair como esta mulher com muitos segredos por revelar numa obra marcada por várias reviravoltas na investigação protagonizada pelo detective. O filme reflecte bem um certo clima de desencanto e pragmatismo dos filmes noir, apresentando-nos um espaço citadino marcado pelo crime, personagens cujos objectivos nem sempre são claros, explorando as sombras que encobrem os elementos humanos da narrativa, evidenciando uma tensão latente, embora nem sempre tenha a fluidez narrativa desejada, não só devido ao seu argumento mediano, mas também pela câmara subjectiva por vezes tornar-se mais um meio de distracção do que propriamente um pormenor enriquecedor do enredo, tirando algum do peso dos seus episódios. Por exemplo, "Dark Passage", também lançado em 1947, foi bem mais eficaz na exploração da câmara subjectiva, apresentando a história através do ponto de vista do protagonista com recurso a esta técnica durante o primeiro terço e só posteriormente exibe o rosto de Vincent Parry, o personagem interpretado por Humphrey Bogart (um actor com muito mais carisma e presença do que Montgomery), utilizando a técnica de forma a valorizar a narrativa e não para se sobrepor a esta. No entanto, "Lady in the Lake" nem por isso se deixa de revelar um filme noir de algum interesse, apresentando-nos a uma história marcada por personagens de carácter dúbio, colocando-nos com muitas dúvidas e perante várias reviravoltas, com Robert Montgomery a destacar-se pela sua audácia e procura em inovar.
Título original: "Lady in the Lake".
Título em Portugal: "A Dama do Lago".
Título em Portugal: "A Dama do Lago".
Realizador: Robert Montgomery.
Argumento: Steve Fisher.
Elenco: Robert Montgomery, Audrey Totter, Lloyd Nolan.


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