Muito se bebe nas obras de Hong Sang-soo. Foi assim em "The Day a Pig Fell into the Well", "The Power of Kangwon Province", "Virgin Stripped Bare by Her Bachelors", "On the Occasion of Remembering the Turning Gate" e é assim em "Woman is the Future of Man" (e em todas as obras do realizador até "Our Sunhi"), onde o excesso de consumo de álcool surge acompanhado por momentos reveladores à mesa, nos quais os personagens revelam-se ao espectador e por vezes até uns aos outros. Estes momentos são essenciais para as obras de Hong Sang-soo, permitindo ao cineasta "despir" os sentimentos dos personagens que cria, ao mesmo tempo que exibe uma visão muito própria dos sul coreanos e dos seus relacionamentos, por vezes com algum desencanto e crueza, pois as suas películas não parecem muito dadas a romantismos exacerbados, não faltando as célebres e estranhas cenas de sexo, onde retira boa parte da sensualidade e erotismo que estas podem ter (veja-se quando um elemento ejacula rapidamente e a sua companheira não tem problemas em o recriminar). Temos ainda uma espécie de triângulo amoroso, tal como tivéramos em "Virgin Stripped Bare By Her Bachelors", com o cineasta a ter, tal como no filme citado, um realizador como um dos protagonistas, que curiosamente até tem alguns comentários para fazer sobre esta bela arte, remetendo provavelmente para as próprias opiniões de Hong Sang-soo (algo que vai ser transversal a várias obras do cineasta, tais como "Like You Know It All" e "Oki's Movie"). Este realizador é Kim Hyeon-gon (Kim Tae-woo), um indivíduo que regressa à Coreia do Sul, após ter concluído os estudos relacionados com cinema nos EUA, tal como o realizador desta obra. Hyeon-gon encontra-se com Lee Mun-ho (Yoo Ji-tae), um professor universitário de arte ocidental, amigo de longa data, casado, que já não via há algum tempo, que até mostra algum ciúme pela forma mais efusiva como o amigo cumprimentou a esposa quando o foram visitar aos EUA. Os dois falam e bebem muito durante uma conversa num café-restaurante, onde Kim até convida a empregada a entrar no seu novo filme e Lee a posar nua para uma pintura sua, embora ambas as ofertas até fiquem sem respostas ou não estivessem ambos "meio" alcoolizados e apresentem os mesmos (e caricatos) meios para se imporem junto da possível "presa".
Numa conversa, estes recordam-se de Park Seon-hwa (Sung Hyun-ah), uma antiga namorada de Kim, que o protagonista abandonou quase sem aviso prévio quando partiu para os EUA, aproveitando-se desta com a mesma facilidade com que a largou. Aos poucos vamos descobrindo algumas memórias do passado destes personagens, que envolvem o facto de Lee ter iniciado uma relação com Park, após o amigo ter abandonado a amada, com o filme a recorrer a flashbacks (embora raramente estes surjam com aviso prévio) para nos explicar alguns momentos do passado do trio de protagonistas. Lee e Kim decidem reunir-se com Park, que gere um bar nas proximidades de Bucheon, um local onde trabalhava quando se encontrava a estudar na universidade, até ter desistido do curso. A reunião entre os três é marcada por alguns momentos de melancolia e tensão, com episódios do passado a serem relembrados no presente e o álcool a nem sempre ser o melhor dos companheiros no que diz respeito à exposição dos sentimentos. Existe muitas das vezes um sentimento de estranheza a rodear os personagens dos filmes de Hong Sang-soo e "Woman is the Future of Man" não é excepção, com o filme a expor-nos perante um conjunto de figuras marcadas por vários erros e defeitos, cuja capacidade para amar parece sempre inferior à habilidade para destruir os relacionamentos à sua volta. O filme não nos dá um guia para um final feliz, nem para um ambiente romântico, pelo contrário, por vezes tudo surge com enorme crueza, criando um certo mal estar entre os seus personagens que a certa altura até passa para o espectador que gradualmente se embrenha nesta história que é paradigmática das obras de Hong Sang-soo. Os personagens não se parecem aproximar, mas sim afastar, procurando num recordar do passado uma felicidade que não conseguem no presente, lidando com erros cometidos que ainda se continuam a repercutir no presente, expondo o conjunto de defeitos que compõem as suas almas.
Estes não parecem ter grande sucesso a nível profissional e muito menos a nível amoroso, surgindo desiludidos em relação à arte, com Hong Sang-soo a expor um certo desencanto da sua geração em relação a essa situação, ao amor e a tudo aquilo que os rodeia (ou seja, são os típicos personagens falhados ligados a campo das artes que povoam as obras do cineasta). Temos ainda Park Seon-hwa, a mulher que desperta a atenção destes homens, que contrariamente ao que pode indicar o título, é tudo menos o futuro dos mesmos. Esta protagoniza algumas cenas de enorme estranheza, ficando na memória o flashback em que esta faz sexo com Hyeon-gon, após ter sido violada por um antigo companheiro, onde o personagem interpretado por Kim Tae-woo faz questão de dizer que a quer lavar, algo que já tinha tentado noutra cena, num banho, marcada por um certo nojo da sua parte. Este é um realizador que nem gosta de dar aulas, mas que até cogita tal acto para ganhar a vida, formando uma estranha relação de amizade com Lee Mun-ho, tendo na casa de Park uma das cenas que provavelmente figurará nas de maior estranheza da obra do cineasta. Na casa, o trio de personagens bebe muito, expressa sentimentos e mostra todo o rancor e sentimentos por revelar ao longo dos anos, um tempo que se parece unir neste presente da narrativa de "Woman is the Future of Man". A obra surge ainda marcada por um conjunto de planos estáticos, por vezes de longa duração, em alguns momentos acompanhados por movimentos de câmara laterais, mas ainda distante dos zooms que vamos encontrar em "Tale of Cinema" e nas obras posteriores, embora até possamos encontrar uma assertiva utilização da música não diegética, com o cineasta a utilizar um recurso a que nem sempre deu muita atenção nos seus filmes anteriores. Neste sentido esta até pode ser considerada uma obra charneira de Hong Sang-soo, que marca uma continuidade com o passado e um olhar para o futuro das suas obras. Um futuro e um passado onde este joga com as percepções do espectador, colocando-o perante pequenos símbolos por vezes apenas perceptíveis após uma segunda visualização, algo visível no cachecol vermelho de Lee, com o qual este adormece e imperceptívelmente só percebemos que este está a sonhar quando o personagem aparece sem o cachecol e uma aluna oferece exactamente a mesma peça de roupa quando este se senta a dialogar com os alunos.
A cena do sonho remete-nos ainda para os flashbacks iniciais e para a capacidade que Hong Sang-soo tem em, de um aparente nada, permitir uma série de leituras sobre as suas obras, cuja densidade nem sempre é inicialmente notada. Exige esforço, é certo, e mesmo após uma segunda visualização por vezes ficamos com o amargo sabor de nos poder ter escapado algo e a nossa interpretação poder não ser a mais adequada. As obras de Hong Sang-soo tornam-se assim não só como um agradável entretenimento, mas também exercício de reflexão que nem todos os filmes são capazes de estimular, exigindo uma atenção extra da nossa parte e desafiando-nos, deixando-nos perante algo por vezes raro de se encontrar numa obra cinematográfica. Esta situação permite que obras como "Woman is the Future of Man" não se esgotem em si próprias, que ganhem vida muito depois do seu visionamento e gerem debates frutuosos como os encontrados nos interessantes artigos do Film of the Month Club (#1, #2, #3, #4, #5), onde Marc Raymond demonstra o porquê de ser um dos nomes mais interessantes de seguir no que se trata da leitura e problematização do cinema asiático. Por sua vez, Hong Sang-soo revela-se como um dos nomes mais interessantes oriundos da Coreia do Sul, sendo um prazer seguir as suas obras, capazes de gerar tantas divisões como aquelas que separam os seus protagonistas, mas também várias paixões e admirações. Não é um nome consensual, mas é tudo menos banal, colocando-nos perante um triângulo amoroso peculiar, mas ao mesmo tempo tão próprio dos seus filmes, que se procuram reunir mas separam-se cada vez mais, numa história onde muito é sugerido e nem sempre tudo é mostrado. Veja-se que nunca encontramos a esposa de Lee a ser apresentada directamente, o bar onde trabalha Park nunca é exibido no seu interior, a violação é comentada mas não exibida, a conversa que marca o reencontro entre Kim e Park no bar não é exposta. O que são expostos e de que maneira são os sentimentos complexos destes personagens, figuras estranhas e extremamente interessantes de acompanhar numa obra marcante de Hong Sang-soo.
Título original: "Yeojaneun namjaui miraeda".
Título em Inglês: "Woman is the Future of Man".
Realizador: Hong Sang-soo.
Argumento: Hong Sang-soo.
Elenco: Yoo Ji-tae, Kim Tae-woo, Sung Hyun-ah.


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