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quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Resenha Crítica: "The Last Tycoon"

 "The Last Tycoon" coloca-nos perante as transformações de um indivíduo e do seu país ao longo de uma narrativa ambiciosa, que deambula entre a juventude deste e o tempo presente, apresentando-nos a pequenos fragmentos do seu ser e aos episódios que marcaram a sua existência. Este indivíduo é Cheng Daqi, interpretado na sua juventude por Huang Xiaoming e durante a maturidade por Chow Yun-Fat. Na juventude, este encontra-se em Chuansha, na província de Jiangsu, desenvolvendo uma paixoneta por Ye Zhiqiu (interpretada nas cenas do passado por Yuan Quan e nas cenas do presente por Monica Mok), uma aspirante a cantora de ópera, que sonha um dia ir para Pequim aprender sobre o ofício e mostrar os seus dotes. Estamos em 1913, ambos os personagens são jovens e rebeldes, com Ye a desobedecer às ordens do pai que não pretende ver a filha a dançar, enquanto Daqi pretende ir para Xangai e vencer na vida, tendo em Fatso um amigo que o vai acompanhar ao longo da narrativa. O destino de Daqi muda quando o seu chefe, o dono da frutaria, pede para o protagonista o ajudar a atacar o amante da esposa. No entanto, Daqui é agredido, o chefe é morto por Pei, um polícia, sendo que o personagem interpretado por Xiaoming é preso, encontrando-se pronto a ser morto, sendo acusado pelo crime que na realidade foi cometido pelo agente (e amante da mulher do seu chefe). Na prisão, o protagonista conhece Mao Zai (Francis Ng), um suposto soldado, cujos homens explodem com a cela, obrigando Daqi a eliminar o indivíduo que o encarcerou, um acto que marca o seu ser e o transforma oficialmente num assassino. Cheng Daqi é obrigado a ter de sair de Chuansha em direcção a Pequim, onde começa a envolver-se em pequenos delitos, ascendendo gradualmente no mundo do crime, formando amizades, incluindo com Lin Huai (Gao Hu, um indivíduo pronto a matar com a sua faca), ganhando a confiança de Hong Shouting, um poderoso chefe do crime, acabando por se afastar de Zhiqiu, sobretudo quando esta o vê a eliminar um conjunto de inimigos com uma frieza implacável. "The Last Tycoon" concede-nos pequenos pedaços da ascensão de Cheng Daqui, intercalados com os momentos em que este já é um poderoso elemento da tríade, com vastas influências nas autoridades, militares e na sociedade, enquanto o seu país encontra-se prestes a ser invadido pelo Japão e este procura manter a lealdade para com a a sua nação, mesmo quando é contactado por militares nipónicos para saberem da sua disponibilidade para se aliar ao inimigo. Quem também está prestes a ser invadido é o coração do protagonista, com a entrada de Ye Zhiqiu em cena, em 1938, com a companhia do seu marido, Chang Zhaimei (Xin Baiqing), um professor que na realidade é um dos elementos rebeldes e conta com uma lista dos elementos revoltosos ao redor da China, que é pretendida por Mao, agora um general. 

 O reencontro entre os dois é feito na entrada do elevador do Shanghai Club (uma espécie de Rick's Café Americaine onde todos lá vão parar), com as grades do mesmo a serem abertas e a destaparem não só o semblante de Ye Zhiqiu, mas também as memórias do antigo casal, com a narrativa a andar num constante balancear entre o presente e o passado. Cheng até mantém uma relação com Bao, construída após a rejeição de Zhiqiu, mas é indesmentível pelo seu rosto que o seu coração ainda bate bem forte por esta talentosa dançarina. Ao longo de "The Last Tycoon" é praticamente impossível olhar para a história de Cheng Daqi e não recordar Rick Blaine, o protagonista de "Casablanca", com Chow Yun-Fat a transmitir o peso que o tempo causou no protagonista e a dor de uma paixão interrompida. Também Rick vira Ilsa com Victor Lazlo (um líder revolucionário), curiosamente teremos ainda mais momentos "à Casablanca", adornados pela bela fotografia de Jason Kwan e Andrew Lau, com Wong Jing a elaborar um conjunto de planos sublimes, a espaços marcados por tonalidades de ocre (veja-se quando o casal discute após o tiroteio no interior de uma igreja, onde Ye vê pela primeira vez Cheng em acção), exibindo ainda uma preocupação com o guarda-roupa adequado à época, mas também pelo que este último simboliza. Veja-se o exemplo do protagonista, um rufia barato nos anos iniciais, com vestes simples, até ascender e utilizar o seu fato branco, sendo exposto todo um cuidado nas vestimentas, mas também na narrativa. O argumento é bastante eficaz a ligar os acontecimentos da vida de Cheng Daqi com a história da China ao longo dos anos 10 a 40 do Século XX, expondo a invasão japonesa, proporcionando algumas cenas intensas de acção, com os espaços citadinos a serem atacados por aviações japonesas, as traições internas, bem como o mundo do crime. Claro que nem sempre existe a devida exploração dos acontecimentos históricos e dos personagens secundários que são apresentados ao longo do filme (veja-se o caso de Bao), existindo muita ambição em traçar um fresco da vida desta espécie de Rick Blaine, que por acaso até é inspirado na figura real de Du Yuesheng, um chefe da Tríade que teve um papel de relevo durante a Segunda Guerra Sino-Japonesa, tendo sido um apoiante de Chiang Kai-shek. No filme, Cheng é um aparente cínico, mas leal para com o seu país (existe uma procura latente em transformar esta figura num anti-herói patriótico), patrocinando juntamente com Hong, o seu chefe, o investimento em dois aviões para o combate contra o Japão, embora a sua maior luta seja para manter a antiga amada em segurança. Cheng e Zhiqiu foram outrora um casal apaixonado, que tal como Rick e Ilsa ainda mantêm uma centelha de amor de um para com o outro no seu interior, embora o primeiro mantenha uma relação com Bao e a segunda com Zhaimei. As transformações que o destino pode fazer nas vidas dos seres humanos surgem paradigmaticamente representadas nestes dois, com ambos a não parecerem ter cumprido completamente os seus sonhos e a terem de conviver com os seus erros. 

Chow Yun-Fat transmite exemplarmente o peso que o tempo causou no seu personagem, bem como uma certa brandura, surgindo como uma figura credível, já não tão irrequieta para colocar o seu nome no topo (até porque é um elemento distinto de Xangai), embora pratique actividades ilícitas, tendo em Huang Xiaoming um elemento à altura do prestigiado actor, com este a dar vida ao protagonista nos seus anos de maior juventude. Diga-se que "The Last Tycoon" é bastante assertivo no capítulo do elenco, com os intérpretes a viverem os personagens com credibilidade, a exporem os seus sentimentos e a protagonizarem alguns bons momentos de cinema. Existe um grande mérito de Wong Jing, um cineasta profícuo, que conta com um número impressionante de obras realizadas e produzidas, mas também com um ego do tamanho do Mundo, atacando tudo e todos, algo que conduz a que as suas obras nem sempre sejam bem recebidas pela crítica. O cineasta coloca-se a jeito, efectuando declarações fofinhas como "Only rubbish people would call my movies rubbish. What qualifies them to have an opinion? Critics are not God, and it’s not for them to judge what’s good or bad; the audience should decide. It’s easy for anyone to use a pen to dismiss others. If I was to pick up my pen, they would lose 99 per cent of the time. I’ve never, ever heard a member of the audience call my movies rubbish". Polémicas à parte, Wong Jing realiza uma obra de largo orçamento que mescla elementos de drama, guerra, acção e filmes de gangsters, onde não falta Chow Yun-Fat como um anti-herói, por vezes a fazer recordar o personagem que interpretara em "The Killer" de John Woo (temos até um tiroteio numa igreja), mas também elementos da saga "The Godfather", parecendo ter existido toda uma inspiração até em cineastas ocidentais como Martin Scorsese e Quentin Tarantino. A referência a John Woo e Tarantino não é ao acaso, não faltando cenas de acção cheias de estilo e em grande nível, que vão desde explosões a lutas com facas (e guarda-chuvas à mistura), tiroteios e muita violência, que contrastam com o cândido (não) romance entre Cheng Daqi e Ye Zhiqiu, que parece saído de "Casablanca" ou dos romances falhados dos filmes de Wong Kar-Wai, com as obras deste último, em particular as tonalidades de "The Grandmaster" que até a parecerem ser evocados em "The Last Tycoon", uma obra cujo título em inglês remete para o filme homónimo de Elia Kazan. 

Wong Jing não nos coloca perante um produtor de Hollywood, mas sim perante a ascensão de um gangster, explorando o contexto histórico que englobou a sua vida e a influência que a conjuntura teve na mesma, apresentando-nos com grande labor ao Shanghai Club, à fulgurante vida nocturna de Pequim em 1913 (cheia de cor, vivacidade e boémia), uma magnífica invasão a uma prisão, entre outros pedaços de uma obra que sabe utilizar os recursos que tem à disposição, sendo muito mais do que um monte de clichés que as interpretações mais simplistas ao filme podem tentar fazer crer (embora também os tenha). Vale ainda a pena realçar o papel das mulheres no meio destes homens, com Bao (Monika Mok a destacar-se nas cenas do presente) a ter um papel de relevo na vida do protagonista, embora a personagem nem sempre seja explorada, Ye Zhiqiu mantém uma vital importância na narrativa (Yuan Quan e Feng Wenjuan sobressaem pela positiva), para além de toda uma miríade de personagens que entram e saem do filme, por vezes sem aviso, mas que não impede uma escorreita percepção da narrativa. Não poderíamos ainda deixar de destacar Francis Ng como Mao, um personagem deliciosamente vilanesco, pronto a trair tudo e todos, implacável, cujo aparecimento na narrativa promete mudar para sempre a vida do protagonista. Temos um conjunto alargado de personagens, dos quais quem mais se destaca é Chow Yun-fat como Cheng Daqi, numa obra que a espaços cai no exagero e no melodrama, mas facilmente recupera, exactamente porque conta com um elenco capaz de superar algumas das suas limitações (sobretudo oriundas da sua excessiva ambição) e oferecer ao espectador uma obra de real interesse. No início do filme, podemos encontrar Cheng Daqi a observar um conjunto de fotografias de elementos que marcaram a sua vida, pequenos fragmentos estáticos, cada um com os seus pedaços de história e significado, que gradualmente vamos conhecendo ao longo das imagens em movimento de "The Last Tycoon", uma obra coesa, capaz de desenvolver o seu protagonista e o contexto histórico que o engloba, resultando num filme bem acima da média. É filme para gente que gosta de se emocionar, de amores impossíveis e memórias marcantes, de vidas em perigo e intrigas políticas, de crimes cometidos e almas marcadas, é obra que não é perfeita mas deixa marca, cujas explosões nunca são tão fortes como os corações que se despedaçaram.

Título original:"Da Shang Hai".
Título em inglês: "The Last Tycoon"
Realizador: Wong Jing.
Argumento: Wong Jing, Phillip Lui, Manfred Wong.
Elenco: Chow Yun-fat, Sammo Hung, Francis Ng, Huang Xiaoming.

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