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Resenha Crítica: "Oki's Movie"

sábado, 11 de janeiro de 2014

 As obras de Hong Sang-soo protagonizadas por realizadores de cinema e com uma estrutura narrativa que pode ser dividida em capítulos ou partes distintas não são propriamente uma novidade, mas sim uma continuidade dos filmes que fazem parte do currículo de um dos mais interessantes realizadores sul coreanos em actividade. "Oki's Movie", a décima primeira longa-metragem realizada pelo cineasta, remete ainda para "Like You Know it All", onde Sang-soo aproveitou o seu protagonista, um realizador de filmes independentes, para defender e fazer um comentário sobre os seus filmes, algo que acontece também neste filme, uma situação notória quando Nam Jin-gu é questionado sobre o seu novo trabalho: "O filme parece dizer muitas coisas. O que você mais quer transmitir?" e este responde:  "Eu apenas fiz o filme. Eu fiz sem nenhum tema em mente. O meu filme é parecido com o processo de conhecer pessoas. Você conhece alguém e tem uma impressão, e faz um julgamento sobre isso. Mas, amanhã, você deve descobrir coisas novas. Espero que o meu filme possa ser similar em complexidade a um ser vivo. Começar com um tema iria levar tudo a um ponto só. Nós não apreciamos um filme pelo seu tema. Nós apenas somos ensinados dessa forma (...)". Este comentário é essencial para compreendermos as películas de Hong Sang-soo, cujos repetidos visionamentos permitem muitas das vezes que descubramos elementos novos e até tenhamos interpretações por vezes distintas sobre as obras, sobretudo se efectuarmos uma visualização alargada de boa parte dos seus filmes, onde ficamos com a certeza de estarmos perante um autor capaz de captar com enorme eficácia os pormenores dos relacionamentos humanos. Nam Jin-gu é um dos protagonistas típicos das obras de Hong Sang-soo, um artista com uma visão muito própria da sua arte, com vários defeitos e virtudes, que bebe em demasia, fuma e protagoniza momentos constrangedores, tendo ainda uma relação complexa com as figuras femininas, em particular Oki (Jung Yoo-mi), como poderemos verificar a partir do segundo capítulo, ou segunda curta-metragem, visto que o realizador não tem problemas em colocar créditos em cada uma das partes, acompanhados por trechos da música "Pomp and Circunstance".

 Ok-heui ou Oki é uma estudante de cinema que se encontra envolvida com o Professor Song, um indivíduo que o protagonista admira, embora não saiba que este partilha os afectos com a sua mulher amada. Oki é o alvo das atenções das figuras masculinas ao longo do filme, algo de que esta tem consciência ao salientar que "Há qualquer coisa na água da faculdade. Toda a gente se apaixona por mim de repente". No caso de "Oki's Movie", o mais correcto é salientar que são dois homens. Não poderia faltar um triângulo amoroso nas obras de Hong Sang-soo, onde o desejo sexual parece mover boa parte dos seus protagonistas, e em "Oki's Movie" este triângulo surge paradigmaticamente representado no quarto capítulo do filme, onde temos o ponto de vista da protagonista feminina. Antes de começarmos a abordar esse quarto capítulo, importa resumir brevemente os quatro capítulos, que se desenrolam durante o Inverno, tentando pelo caminho não divulgar muitos spoilers, embora muitas das vezes o grande prazer que tiramos destas obras sejam mesmo ver os seus personagens a trocar prosa e não tanto a seguir apenas o seu enredo. No primeiro segmento, intitulado "Um dia de Encantamento", Nam Jin-gu (Lee Sun-kyun) recorda-se dos primeiros dias onde conheceu Jang Su-yang (Seo Yeong-hwa), a sua esposa. Esta era casada e encontrava-se a tirar fotografias, tendo fotografado o protagonista enquanto este dormitava num banco de jardim. A reacção deste não é de enorme felicidade, mas percebemos que este primeiro encontro resultou em algo mais. Pouco depois, encontramos Nam num diálogo sobre cinema com Song, um antigo professor seu, com o decano a salientar que "O cinema como arte acabou. Está morto. E o mesmo vale lá para fora", revelando um desencanto sobre o cinema, expondo o seu receio pela possibilidade da necessidade dos estúdios quererem fazer dinheiro a todo o custo poder arruinar com o cinema. Nam terá posteriormente uma altercação com Song, num jantar típico dos filmes de Hong Sang-soo: muito álcool ingerido, diálogos profundamente humanos e os personagens a exporem os seus sentimentos em demasia, com o protagonista a embaraçar o colega de profissão.

No entanto, o momento de maior reflexão para o protagonista acontece quando se encontrava a apresentar o seu filme, numa sala praticamente vazia, onde um elemento feminino do público (já tinha salientado que o protagonista ia ter problemas com as mulheres) questiona sobre a possível relação deste com a estrela do filme e se foi o responsável para estragar a vida da mesma, tendo em conta que a amiga se encontrava numa relação. A narrativa avança então para o segundo capítulo, intitulado "O Rei dos Beijos", onde assistimos ao formar da relação entre Nam, então um estudante universitário, e Ok-heui, também ela uma aluna de cinema, com o enredo a flutuar temporalmente na vida do protagonista, algo recorrente nas obras de Sang-soo, criando um puzzle com a sua narrativa, que é gradualmente decomposto e muito tem para nos dar. Oki mantém uma relação complexa com o Professor Song, um homem casado, mas gradualmente começa a ceder aos avanços de Nam. Este triângulo amoroso é colocado em confronto na terceira parte ou se preferirem terceira curta de "Oki's Movie", intitulada "Após a Tempestade de Neve", onde quase todos os alunos faltam à aula de Song, excepção feita a Oki e Jin-gu, com o trio a falar sobre questões relacionadas com o amor e as suas experiências pessoais, sem que o personagem interpretado por Lee Sun-kyun saiba da relação entre a amada e o professor. Se Jin-gu é o destaque do primeiro capítulo, Jin-gu e Oki o destaque do segundo e Song ganha maior relevo na terceira parte, já no quarto capítulo temos a exposição da curta-metragem realizada pela protagonista feminina. Na curta, um pouco à imagem do que foi efectuado em "Virgin Stripped Bare by Her Bachelors", Sang-soo coloca-nos perante o ponto de vista feminino dos acontecimentos, enquanto Oki relata a experiência da personagem do seu filme com um homem mais velho e um homem mais novo, explorando as suas idiossincrasias, sempre baseado em experiências pessoais, enquanto Sang-soo opta pelo seu habitual estilo de repetir momentos e diálogos, jogando com a nossa noção de tempo e expondo os dilemas que afectam estes personagens.

Entre o passado e o presente dos seus protagonistas, "Oki's Movie" deixa-nos perante um universo narrativo bem próprio das obras de Hong Sang-soo, onde os personagens bebem muito, expõem os seus dilemas e fragilidades, falam sobre os mais variados temas, amam e destroem as suas relações amorosas, têm visões muito vincadas sobre a arte, para além como é óbvio dos habituais zooms inquietos do cineasta, marca muito própria do mesmo, que surgiu pela primeira vez nas suas obras em "Tale of Cinema" e desde aí têm sido nossos companheiros. A utilização da palavra companheiros não é exagerada. Hong Sang-soo criou um conjunto de obras muito próprias, onde é fácil discernir elementos em comum, que premeiam quem conhece o todo da sua obra, notando-se uma certa evolução no interior de uma continuidade, enquanto este continua a abordar questões ligadas com a cultura e sociedade da Coreia do Sul, voltando a desconstruir a figura masculina ao apresentar-nos dois homens distintos na forma como lidam com o amor, mas igualmente destrutivos no que diz respeito ao mesmo. As interpretações são eficazes, destacando-se Lee Sun-kyun, um colaborador habitual de Hong Sang-soo (integrou o elenco de "Night and Day", "Nobody's Daughter Haewon", "Our Sunhi" e da curta "Visitors: Lost in the Mountains"), como um realizador de filmes independentes que pouco sucesso alcançou, que fuma, bebe, faz promessas que não pode cumprir, ou seja, que representa o personagem típico das obras de Hong Sang-soo. "Oki's Movie" coloca-nos assim perante pequenos segmentos de um triângulo amoroso complexo, revelando-se uma obra marcada por um conjunto de diálogos assertivos, boas interpretações, alguns momentos de humor e ironia, num estilo muito próprio de Hong Sang-soo, onde não falta um comentário sobre as obras cinematográficas que tanto tem de si.

Título original: "Ok-hui-ui yeonghwa".
Título em inglês: "Oki's Movie".
Realizador: Hong Sang-soo. 
Argumento: Hong Sang-soo. 
Elenco: Lee Sun-kyun, Jung Yoo-mi, Moon Sung-keun.

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