Os momentos iniciais de "On the Occasion of Remembering the Turning Gate" são marcados por chuva intensa, cenários diminutamente iluminados e pouco dados a grandes efusividades (a não ser que alguém adore chuva forte). A temperatura não parece ser a mais agradável, nem o estado de espírito de Gyung-soo (Kim Sang-kyung), um actor de teatro, cujo filme que protagonizou foi um rotundo fracasso, algo que o próprio questão de dizer a Sung-woo, um amigo escritor que lhe liga a dizer que está em Choonchun, tendo visto a obra cinematográfica e gostado, embora o actor logo diga que este foi das poucas pessoas que viu o trabalho. A conversa desenrola-se ao telemóvel, Gyung-soo está sozinho num táxi e as suas esperanças no futuro profissional são tão nebulosas como o ambiente no exterior do veículo, sobretudo quando recebe um telefonema do realizador do seu filme anterior a dizer que foi retirado da sua nova obra devido aos produtores culparem-no do fracasso do filme. Gyung-soo logo passa pelo escritório para receber o pagamento dos seus honorários, onde é recebido com animosidade pelo realizador que considera um ultraje o facto do actor pretender a totalidade que lhe é devida do salário. Este é o protagonista de "On the Occasion of Remembering the Turning Gate", a quarta obra cinematográfica realizada por Hong Sang-soo. O cineasta volta a utilizar o método de dividir a narrativa por capítulos, tal como fizera em "Virgin Stripped Bare by Her Bachelors", algo que integra o espectador na narrativa e justifica uma estrutura por vezes fragmentada, onde um actor se prepara para conhecer uma série de peripécias amorosas pouco convencionais, enquanto procura um rumo para a sua vida. Pouco depois de vermos Gyung-soo a procurar receber o dinheiro em falta, este sai de Seul em direcção a Choonchun, onde se encontra Sung-woo, a viver com a prima, o marido desta e a filha do casal. Nesta cidade, Gyung-soo logo é apresentado aos prazeres nocturnos, onde não faltam as célebres cenas dos filmes de Hong Sang-soo em que os personagens bebem mais do que a conta, geralmente soju ou algo que os embebede, em locais pouco requintados, desta vez até adornados pela presença de duas belas e desnudas mulheres, com o filtro vermelho a explorar o clima sentimentalmente quente e de algum erotismo que se acerca da narrativa.
A presença do filtro vermelho, exponenciador dos sentimentos, contrasta com as imagens a preto e branco de "Virgin Stripped Bare by Her Bachelors" e até com algum do formalismo estético de "The Day a Pig Fell into the Well". Voltamos a ter maioritariamente planos fixos, é certo, mas desta vez também temos a presença desse vermelho, de um momento quente, que até termina de forma abrupta, não vamos nós pensar que Hong Sang-soo quer que cenas que envolvam nudez não tenham algumas pitadas de constrangimento. Temos ainda uma espécie de triângulo amoroso, a fazer recordar o terceiro filme realizado por Hong Sang-soo, mas o cineasta está mais preocupado nas oportunidades que estes personagens falham em atingir o amor e a felicidade, em atomizar as suas chances de sucesso. Este triângulo é formado por Gyung-soo, Sung-woo e Myung-sook. Esta é uma dançarina apresentada por Sung-woo ao amigo, uma mulher que terminou um relacionamento há cinco anos e ainda não parece ter superado o caso, tendo no álcool um bom conselheiro para se envolver com o protagonista, gerando por este uma certa obsessão e no personagem interpretado por Sang-kyung uma certa dor, ou não estivesse este último apaixonado pela amiga. A relação entre Gyung-soo e Myung-sook é rápida, tendo numa noite de sexo algo estranho devido aos diálogos da personagem feminina o ponto alto e a queda no dia seguinte, sendo que a partida do protagonista, que vai apanhar o comboio para Seul logo termina com uma relação que nunca o chegou a ser verdadeiramente. Este desejava Myung-soo e ela gerou uma obsessão pelo actor. No caminho para casa, Gyung-soo conhece no comboio Sun-young, uma mulher que desperta a sua atenção, conhecendo o trabalho do actor e elogiando o mesmo. Este toma a iniciativa inesperada de sair na mesma paragem que esta, em Kyungju, seguindo-a até casa, ganhando posteriormente coragem para a contactar. Amor ou obsessão? Os sentimentos em "On the Occasion of Remembering the Turning Gate" nem sempre são lineares, tal como os seus personagens são figuras bem complexas, algo peculiares e isoladas da sociedade, que o diga este casal, composto por um actor caído em desgraça e uma mulher casada cujo destino parece ser incerto, ao mesmo tempo que vamos descobrindo que ambos até têm um passado em comum, embora esteja algo reservado nas franjas da memória.
Estes dois até protagonizam um momento a ecoar a Jesse e Céline em "Before Sunrise", conhecendo-se num comboio, embora a relação de ambos tenha muito menos momentos românticos do que o relacionamento protagonizado pela dupla do filme realizado por Richard Linklater. A incerteza permeia o destino deste casal, tal como as obras de Hong Sang-soo, a começar pelos seus argumentos, muitas das vezes dependentes de improvisações, mas também os seus próprios personagens, que estão longe de ser pessoas com grandes certezas em relação às suas vidas. A começar pelo protagonista, um actor cuja profissão pouco é explorada pela narrativa, algo que até percebemos tendo em conta que a mesma já conheceu melhores dias e este parece mais preocupado na suas conquistas. O protagonista é interpretado por Kim Sang-kyung, um actor que mais tarde voltaria a colaborar com Hong Sang-soo em "Tale of Cinema" e "Ha Ha Ha", tendo em Gyung-soo um personagem típico das obras do realizador, que não poupa os seus personagens a estranhos momentos durante o sexo (consta que até falha durante um acto, embora esta obra seja bem mais explícita que os seus filmes anteriores), mantém o gosto por seios de Jae-hoon (Jeong Bo-seok) em "Virgin Stripped Bare by Her Bachelors" e o prazer de beber álcool dos vários personagens das obras do cineasta, para além de ser um artista e procurar refugio num território longe das grandes superfícies urbanas, ou seja, é o típico personagem do cineasta. Gyung-soo é algo alienado da sociedade onde vive, para não dizer que é mesmo um indivíduo estranho, sendo um dos objectos de estudo do filme, com Hong Sang-soo a nos apresentar a um personagem bem peculiar, que se envolve com duas mulheres e acaba por nos envolver na sua história. O enredo é marcado por uma notável atenção ao pormenor, seja este nos diálogos bastante vivos e de uma qualidade surpreendente se tivermos em conta que o argumento foi escrito quase diariamente, dando espaço a improvisações, ou na exploração dos espaços onde se desenrola a narrativa, não faltando os néones em Seul e os célebres restaurantes onde os personagens comem, bebem muito e dialogam em Choonchun, bem como a exploração da lenda do "Portão de Regresso" (e o local), cuja história encontra paralelo com o final do filme (daí não podermos revelar).
Não podemos esquecer ainda uma assertiva utilização da cor. Veja-se a camisola vermelha do protagonista, representando a fogosidade dos relacionamentos, e até o filtro vermelho do clube nocturno onde Gyung-soo sai com o amigo. Temos assim a cor ao serviço da narrativa, ao contrário da obra anterior do cineasta, filmada a preto e branco, mas com igual beleza. Em "On the Occasion of Remembering the Turning Gate", este coloca-nos perante uma narrativa algo elíptica, exposta através de sete capítulos, pequenos fragmentos da vida de um estranho actor, cujos relacionamentos são expostos diante de nós. A certa altura de "On the Occasion of Remembering the Turning Gate", o realizador que deixou o protagonista de fora do seu próximo trabalho salienta que "Mesmo sendo difícil ser um humano, não vamos nos transformar em monstros, ok?". Este parece ser o mote do filme, com os personagens a mostrarem a sua humanidade, a amarem, desejarem, errarem, cometerem actos pouco pensados e a mostrarem toda a sua condição humana. Encontramos ainda alguns salpicos de humor, seja este dos constrangimentos ou até de situações tão caricatas como a família de Sun-young à porta com grande vontade de afastar o protagonista, cujas intenções são bem claras ao longo desta obra belíssima. Hong Sang-soo pega assim em temáticas de obras anteriores (que até vão estar em obras posteriores) para elaborar um filme sublime, muito ao seu jeito, cuja narrativa ganha um valor maior a cada visualização, apresentando-nos a um protagonista complexo, longe de ser o paradigma de virtudes, aparentemente incapaz de se comprometer, mas que é capaz de amar como qualquer um de nós e até de errar. É na soma de todos os defeitos e qualidades que "On the Occasion of Remembering the Turning Gate" nos conquista, expondo o engenho do seu realizador, a humanidade dos personagens que povoam a narrativa e deixando-nos mais uma vez com uma obra que tem o cunho autoral de Hong Sang-soo.
Título original: "Saenghwalui balgyeon"
Título em inglês: "On the Occasion of Remembering the Turning Gate".
Realizador: Hong Sang-soo.
Argumento: Hong Sangs-soo.
Elenco: Kim Sang-kyung, Chu Sang-mi, Ye Ji-won.
Título original: "Saenghwalui balgyeon"
Título em inglês: "On the Occasion of Remembering the Turning Gate".
Realizador: Hong Sang-soo.
Argumento: Hong Sangs-soo.
Elenco: Kim Sang-kyung, Chu Sang-mi, Ye Ji-won.


Nenhum comentário:
Postar um comentário