Filmes sobre psicopatas com distúrbios latentes que cometem crimes macabros não são propriamente uma novidade na sétima arte, mas "Confession of Murder" não se intimida e mostra ter algo a dizer, surgindo como uma obra electrizante, tensa e inquietante, onde a sua história marcada por algumas reviravoltas surpreendentes facilmente prende a nossa atenção. A narrativa começa em 2005, quando prescreve o prazo legal para o serial killer de dez assassinatos que ocorreram entre 1986 e 1990 poder ser julgado e preso, tendo conseguido ficar livre de qualquer acusação (uma temática que foi abordada posteriormente por "Montage"). Quem sofre com esta situação são os familiares das vítimas, bem como Choi Hyeong-goo (Jung Jae-young), o polícia responsável pelo caso, ainda marcado por uma cicatriz efectuada pelo assassino, tendo falhado em capturar o mesmo, um momento pouco glorioso que é exposto desde logo nos fulgurantes momentos iniciais do filme. Choi é chamado por Jung Hyun-sik (Ryoo Je-seung), o filho de uma das vítimas, que logo comete suicídio. Dois anos depois, Lee Doo-seok (Park Si-hoo) causa um enorme burburinho ao lançar o livro: "Eu Sou o Assassino", onde revela que cometeu os crimes há dezassete anos atrás, algo que provoca uma enorme comoção junto dos familiares das vítimas e de Choi. O livro é um sucesso de vendas, o assassino ganha um conjunto de fãs invejável e o seu discurso de arrependimento parece convencer toda a gente, ou pelo menos quase toda, visto que Choi duvida que este seja o assassino, procurando a todo o custo saber o paradeiro da 11ª vítima, que nunca fora encontrada. Por sua vez, os familiares das vítimas, liderados em parte por Han Ji-soo (Kim Young-ae), a mãe da 11ª primeira vítima, decidem reunir-se para fazerem justiça pelas próprias mãos, protagonizando alguns momentos de enorme emotividade, ao encherem a piscina do hotel (requisitada durante meia hora em exclusivo por Lee) de cobras, algo que conduz os familiares a fingirem ser enfermeiros que se encontram na ambulância chamada para socorrer o suposto psicopata, com os seguranças do suposto assassino e Choi a fazerem de tudo para perseguir o veículo. Posteriormente Choi consegue libertar Lee, mas tudo piora quando num debate televisivo, um indivíduo de seu nome J, revela ser o assassino e saber do paradeiro da 11ª primeira vítima, lançando a duvida colectiva, numa obra muito marcada por várias reviravoltas surpreendentes, conduzindo-nos a uma a investigação intrincada que culmina num último terço de cortar a respiração. Contar mais do que aquilo que foi mencionado pode e certamente irá estragar o prazer do visionamento da primeira longa-metragem de ficção de Jeong Byeong-gil, após ter despertado alguma atenção devido ao documentário "Action Boys".
Em "Confession of Murder", Jeong Byeong-gil expõe as limitações da lei, desafia os nossos valores morais e explora uma investigação intrincada, onde gradualmente as nossas expectativas vão sendo desafiadas. Mérito para o argumento que é capaz de desenvolver o protagonista e os dois possíveis assassinos, bem como alguns familiares das vítimas, permitindo aos actores sobressaírem e tornar credíveis as reviravoltas e os eventos apresentados. Existe um momento ou outro em que a nossa credibilidade é desafiada, é certo (veja-se quando as cobras são colocadas na piscina e até a personagem especialista em atirar setas, filha de uma das vítimas), mas existe todo um cuidado em explorar a investigação e a possibilidade dos familiares das vítimas poderem ou não eliminar o assassino. O que faria numa situação destas? O próprio protagonista não se esqueceu que a sua cara metade foi uma das vítimas e por vezes parece colocar em dúvida a lei que prometeu proteger, sendo interpretado com a devida intensidade por Jung Jae-young, com este a evidenciar que a maior cicatriz do seu personagem não é a que tem no rosto mas sim na alma. Este trava um duelo de vontades com o assassino, procurando a todo o custo expor a sua verdadeira identidade, quer com Lee, interpretado por um eficaz Park Si-hoo, com o actor a pontuar o seu personagem por alguma malevolência, até finalmente expor a sua verdadeira identidade, quer com J. Vale a pena realçar a interpretação de Jeong Hae-gyoon como J, o indivíduo que declara ser o verdadeiro assassino, com este a protagonizar alguns dos momentos marcantes e perturbadores do filme, com a sua entrada em cena a mudar o figurino do filme. Para além desta investigação complexa e dos dilemas morais que a mesma levanta, "Confession of Murder" conta ainda com um conjunto de cenas de acção bem elaboradas (as perseguições de carro estão soberbas), exacerbadas pelo bom trabalho de fotografia de Jeong Yong-gyeon, com Jeong Byeong-gil a realizar um thriller acima da média, expondo ainda a questão do culto das celebridades que não o são, ridicularizando um grupo de fãs que anseia por Lee ser o verdadeiro assassino, mostrando mais um lado pouco positivo da humanidade. Temos ainda os dois intensos debates televisivos, onde "Confession of Murder" expõe momentos de paradigmática inquietação e paranóia, mas também o lado mais negro do entretenimento sensacionalista, onde vale tudo para a conquista das audiências. Com uma atmosfera negra, inquietante e algumas reviravoltas surpreendentes, "Confesssion of Muder" é mais um exemplar dos bons thrillers oriundos da Coreia do Sul.
Título original: "Nae-ga sal-in-beom-i-da".
Título em inglês: "Confession of Murder".
Realizador: Jeong Byeong-gil.
Argumento: Jeong Byeong-gil, Jeong Byeong-sik, Kim Dong-gyoo, Lee Yeong-jong, Hong Won-chan.
Elenco: Jung Jae-young, Park Si-hoo, Jeong Hae-gyoon, Kim Young-ae, Choi Won-young.
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