Tsui Hark é um cineasta algo dado a excessos. "Green Snake" é uma obra paradigmática desses devaneios, com o cineasta a conceber uma obra dominada por elementos de fantasia e misticismo, uma utilização berrante da paleta cromática, usando e abusando de tonalidades verdes e azuis, dando um tom estilizado e irreal a uma película que tem como protagonistas duas belas mulheres, que na realidade são duas cobras. Estas são a Cobra Branca (Joey Wong) e a Cobra Verde (Maggie Cheung), dois espíritos que se encontram na Terra há vários anos, adaptando-se às formas e sentimentos humanos. A Cobra Branca é mais experiente e calma, procurando ter uma relação com Hsui Xien (Wu Hsing-Kuo), um professor que é enganado inicialmente por estas duas mulheres e até chega a ter relações sexuais com a primeira. Já a Cobra Verde é impetuosa e dada a excessos, sendo menos cuidadosa do que a sua irmã, descurando muitas das vezes o disfarce corporal, deixando em alguns momentos a sua enorme cauda verde (eu falei em excessos) e a sua língua enorme (acho que não preciso de voltar a falar dos excessos) à vista, tendo alguma dificuldade em compreender os humanos e os seus sentimentos. As duas criaturas encontram-se numa casa mágica, criada pelos poderes destas, sendo capazes de manipular a mente humana, com a Cobra Branca a pretender engravidar de Hsui Xien. A Cobra Branca e a Cobra Verde são perseguidas por um elemento taoísta que pouco ou nada consegue fazer contra estas, bem como por Fa-hai (Vincent Zhao), um monge budista especialista em perseguir entidades que assumam forma humana, tendo uma postura ambígua em relação às duas protagonistas, embora as importune, apesar de muitas das vezes parecer que nem este sabe bem as razões de se encontrar a tomar estes actos de fanatismo religioso, sobretudo quando ele próprio também acaba por cair em tentação. Fa-hai acaba por raptar Hsui Xien para chegar às duas cobras, obrigando-as a utilizar os seus poderes para resgatar o indivíduo, enquanto procuram a todo o custo permanecer no mundo dos humanos ao longo desta peculiar obra cinematográfica realizada por Tsui Hark, um cineasta de relevo da chamada Nova Vaga do cinema de Hong Kong, que tem aqui um exemplo da sua capacidade em criar filmes distintos, contando ainda com uma dupla de protagonistas que ajuda e muito a sua tarefa.
Ambas as actrizes apresentam desempenhos bastante positivos, atribuindo algum mistério, sensualidade e credibilidade às personagens que interpretam. Joey Wong explora as características mais pragmáticas da Cobra Branca, enquanto Maggie Cheung apresenta uma certa irreverência como a Cobra Verde, com as duas actrizes a apresentarem uma dinâmica muito interessante, mesmo quando as suas personagens parecem apresentar alguma rivalidade em relação a Hsui Xien, ao longo desta obra meio surreal. Quando encontramos a personagem interpretada por Maggie Cheung a locomover-se como se fosse uma cobra e até a lançar a sua longa língua para apanhar uma mosca, ou desligamos por completo o nosso lado mais pragmático ou "Green Snake" corre o risco de se tornar um espectáculo pouco agradável. Se conseguirmos aceitar este peculiar universo narrativo criado por Tsui Hark, então "Green Snake" revela-se uma obra bastante agradável de acompanhar, com o cineasta a criar um filme digno de algum relevo, marcado por uma magnífica utilização das cores e uma história bem construída. Hark é capaz de imbuir a obra de uma atmosfera próxima de um sonho e explorar alguns elementos da mitologia chinesa e os seus simbolismos, desenvolvendo um mundo irreal marcado por sentimentos reais, que gradualmente nos consegue conquistar e prender à história das personagens interpretadas por Maggie Cheung e Joey Wong. Existe toda uma sensualidade e erotismo associado à história das personagens interpretadas por estas duas actrizes, algo visível desde logo quando as encontramos num momento marcado por enorme exotismo da dança do ventre (a influência dos filmes de Bollywood parece estar muito presente na obra), ou quando a Cobra Verde procura seduzir Fa-hai, e até quando as protagonistas se banham, com Tsui Hark a criar uma obra digna de relevo, cheia de cor, meio surreal, parecendo por vezes pequenas pinturas em movimento. Belas pinturas em movimento marcadas por enorme vida, compostas por uma "cacofonia" de cores (a utilização do filtro azul é recorrente, para além dos tons verdes, vermelhos, etc), boas interpretações dos elementos principais do elenco, uma banda sonora adequada, cenas de acção habilmente coreografadas, sendo criado algo muito próximo de um sonho, irreal é certo, mas incrivelmente belo. O enredo é baseado na lenda chinesa "Madame White Snake", iniciada na tradição oral e adaptada para várias obras cinematográficas, tendo em "Green Snake" um exemplar merecedor de grande atenção, com Tsui Hark a conceber uma experiência cinematográfica visualmente marcante para o espectador, ao longo de uma película composta por muita fantasia, mistério, romance e algum drama, onde duas criaturas procuram conhecer os sentimentos humanos, até descobrirem gradualmente que esse desiderato traz consigo vários perigos, com a humanidade a contar com tantos ou mais defeitos que estes demónios. Veja-se o fanatismo que conduz alguns personagens a perseguirem estes seres, quando as duas protagonistas até procuram ajudar e compreender os humanos. No final a desgraça parece certa e o amor chega de forma algo tardia, existindo uma certa alegoria para a perseguição a estes dois seres bem intencionados, com Tsui Hark a parecer não descurar a vertente política (o manto vermelho de Fa-hai pode remeter para a China) e uma mensagem de tolerância para com a diferença, mas também todo um aspecto muito kitsch realçado pelos efeitos especiais manhosos que contrastam com alguns magníficos cenários (veja-se a floresta recheada de bambus, a casa das protagonistas, entre outros), ao longo de um filme envolvente e visualmente marcante.
Título em inglês: "Green Snake".
Título original:
Realizador: Tsui Hark.
Argumento: Tsui Hark.
Elenco: Maggie Cheung, Joey Wong, Vincent Zhao, Wu Hsing-kuo.
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