Curiosamente, muito dos diálogos e da construção dos personagens foram fruto do improviso de Peter Sellers, com este a colaborar com Stanley Kubrick no desenvolvimento dos mesmos, com o argumento a prever exactamente explorar o génio do actor, juntando-se um realizador maravilhoso com um actor assombroso. Dos três personagens interpretados por Sellers, Strangelove é o elemento que mais se destaca, ou não fosse este indivíduo na cadeira de rodas a personificação do lado negro destas políticas desastrosas aplicadas na Guerra Fria. Kubrick contribui para explorar o lado negro desta personagem, colocando-o numa cadeira de rodas nas sombras, trazendo-o para a narrativa num momento fulcral e conduzindo-o a um momento digno de ficar na memória quando este se levanta e rejubila: "Mein Führer, consigo andar!". Strangelove remete para a Operation Paperclip, onde cientistas da Alemanha Nazi eram contratados pelos EUA, com o personagem a ter sido inspirado em figuras como Herman Kahn, um estudioso conhecido pelas suas teorias sobre as consequências de uma possível guerra nuclear, entre outros elementos. Sellers destaca-se ainda como o presidente Merkin Muffley, um indivíduo que cedo percebe que os seus poderes facilmente são desrespeitados, num personagem que terá sido inspirado em Adlai Stevenson, um antigo governador do Ilinois. O versátil actor dá vida ainda a Lionel Mandrake, um capitão que procura a todo o custo lidar com as excentricidades de Ripper, protagonizando momentos caricatos como ter de telefonar ao Presidente de uma cabine telefónica com dinheiro furtado de uma máquina de Coca-Cola. Este roubo das moedas é um dos vários momentos meio non-sense do filme, marcada por um humor negro inteligente, capaz de tocar em elementos relevantes e preocupantes da Guerra Fria e dos perigos de uma possível Guerra Nuclear, criando uma obra brilhante e criativa que inicialmente até foi idealizada como um thriller político, mas que com o desenvolver da obra Stanley Kubrick decidiu por uma feliz mudança de rumo, resultando numa das grandes comédias da história do cinema. O facto de Dr. Strangelove ser considerado como uma das comédias mais relevantes do pós-Guerra não é fruto do acaso. Nota-se que existe todo um trabalho de pesquisa para explorar as temáticas, não faltando referências várias ao período histórico, uma capacidade notável para extrair o melhor que os seus actores têm para dar e uma paradigmática utilização do espaço da narrativa, sobressaindo todo o cuidado colocado na elaboração dos cenários.
Os cenários onde se desenrola a narrativa surgem em número restrito e meticulosamente pensados, sendo utilizados com uma eficácia notável. Veja-se o caso da sala de guerra, uma sala composta por uma mesa circular que reúne várias das figuras de poder e decisão para avançar ou não para a Guerra Nuclear, como se fossem jogar às cartas enquanto um Presidente procura evitar que os aviadores ataquem a União Soviética. Neste espaço os intervenientes digladiam-se de opiniões, quase sempre resultando em momentos que variam entre a tensão e o humor, destacando-se também a presença do General Buck Turgidson, um indivíduo que por vezes faz questão de contrariar o seu Presidente, anti-Soviético e algo abrutalhado. Temos ainda a base onde se encontram Ripper e Mandrake, dois militares com posturas distintas mas igualmente incompetentes, num espaço marcado por uma suposta protecção externa, embora não impeça a entrada da loucura do personagem interpretado por Sterling Hayden. Vale ainda a pena realçar o interior do avião B52 onde se encontra o Major T. J. "King" Kong (numa evidente referência a King Kong), onde este protagonizará um momento icónico do filme acompanhado pela bomba, qual praticante de rodeo a domar um animal. Quem domina o filme é Stanley Kubrick, cuja minúcia que coloca nos seus filmes resulta numa das suas obras maiores, apresentando um certo cepticismo em relação aos avanços tecnológicos e à forma nefasta como estes podem ser utilizados, em particular no que diz respeito à bomba nuclear. O filme foi lançado originalmente em 1964, numa fase onde a crise dos Mísseis de Cuba ainda estava muito viva (e provavelmente terá estado na memória de Kubrick e Terry Southern durante a elaboração do argumento), bem como a paranóia colectiva, o medo de uma possível deflagração de uma guerra nuclear, algo que surge expresso com enorme eficácia em "Dr. Strangelove or: How I Learned to Stop Worrying and Love the Bomb". Stanley Kubrick consegue pegar num conjunto de assuntos sérios e brincar com estes, sem descurar a criação de alguns elementos mais tensos e dramáticos, mas sempre sem perder o tom corrosivo desta sátira hilariante, composta por momentos e diálogos icónicos, dominada por magníficas interpretações de um conjunto de actores que souberam incutir personalidades vincadas aos seus personagens. Se "Dr. Strangelove or: How I Learned to Stop Worrying and Love the Bomb" continua a manter um valor inolvidável a nível cinematográfico, não deixa também de ser assinalável que essa paranóia em relação às armas nucleares ainda recentemente tenha sido uma das causas para a caricata invasão dos EUA ao Iraque, com as mesmas a não terem sido encontradas, mas a serem uma das justificações principais invocadas para a acção militar no território. Já em "Dr. Strangelove or: How I Learned to Stop Worrying and Love the Bomb" essa paranóia surge acompanhada por políticos algo incompetentes, militares muito peculiares e um ex-nazi pronto a personificar o pior da humanidade e ficamos com um retrato soberbo, corrosivo e inteligente da paranóia nuclear durante a Guerra Fria, naquela que é uma das grandes obras-primas de Stanley Kubrick.
Título original: "Dr. Strangelove or: How I Learned to Stop Worrying and Love the Bomb".
Título em Portugal: "Doutor Estranhoamor".
Realizador: Stanley Kubrick.
Argumento: Stanley Kubrick, Peter George, Terry Southern.
Elenco: Peter Sellers, George C. Scott, Sterling Hayden, Keenan Wynn, Slim Pickens.


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