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Resenha Crítica: "Our Sunhi"

segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

 Poucos são os cineastas contemporâneos que conseguem manter o mesmo toque autoral e um tom muito próprio nos seus filmes, quase que reciclando as suas obras e as suas temáticas, e proporcionar-nos alguns pedaços de enorme cinema como Hong Sang-soo. "Our Sunhi" marca mais um exemplo da proficuidade do cineasta, acompanhada por uma certa qualidade, mas também uma exploração de temáticas muito frequentes nas suas obras, com estas a formarem um corpo muito próprio que se torna algo gratificante para quem acompanha as mesmas. O cineasta volta mais uma vez a ter uma mulher como protagonista, desconstruindo a figura dos homens coreanos através dos três indivíduos que orbitam à sua volta, pensam conhecer a "sua Sunhi" e deixam-se conquistar por esta. Hong Sang-soo até já foi outrora acusado de algum machismo, mas desde "In Another Country" e "Nobody's Daughter Haewon" que encontramos protagonistas femininas nos seus filmes, já para não falar na importância das mulheres em "Woman on the Beach". "Our Sunhi" entronca mais em "Nobody's Daughter Haewon", com a protagonista, Sunhi, até a apresentar roupas e comportamentos semelhantes, sendo uma rapariga aparentemente introvertida, capaz de gerar paixões, pouco dada a grandes amizades e, tal como boa parte das personagens criados por Hong Sang-soo, encontra-se ligada ao ramo das artes, pretendendo tirar uma pós-graduação no estrangeiro de forma a tornar-se realizadora, um ano após ter concluído a licenciatura e praticamente ter desaparecido do meio universitário. Nesse sentido, esta pede uma carta de recomendação a Choi Donghyun (Kim Sang-joong), um professor que Sunhi tem em boa conta, que até preferia ver a estudante a tomar iniciativas práticas, nutrindo por esta sentimentos que vão para além do mero afecto de professor para com uma das suas alunas predilectas. Este fica de lhe entregar a carta no dia seguinte, algo que dá tempo a Sunhi de se chatear com um antigo colega e de ir beber cerveja a um restaurante. No exterior do restaurante, esta encontra Munsu (Lee Sun-kyun), o seu ex-namorado, chamando-o e tirando satisfações por este ter utilizado a história de ambos para o seu filme de estreia na realização cinematográfica. Munsu logo pede soju, com os dois a consumirem álcool e a ficarem sentados à mesa num prolongado diálogo, naquela que é uma das típicas cenas de Hong Sang-soo (em todos os seus filmes os personagens ficam embriagados), nas quais os personagens bebem muito, expõem os seus sentimentos e fraquezas, e as garrafas à sua volta vão aumentando. No caso de Munsu, este aproveita para elogiar Sunhi, salientando a importância da ex-namorada na sua vida, embora apenas pareça uma figura meio destroçada, que não consegue ser bem sucedido profissionalmente e amorosamente, contribuindo para a já salientada desconstrução (e até alguma ridicularização) do homem coreano, sempre com algum humor à mistura.

 Munsu pode ainda ser ligado à própria figura de Hong Sang-soo, sendo um cineasta com uma obra independente realizada e algo elogiada, mas pouco vista pelo grande público. Este encontra-se a tirar o último semestre da sua pós-graduação, algo que poderá permitir-lhe dar aulas, uma profissão que não coloca de lado, mostrando ainda sentir-se apaixonado por Sunhi, ou pelo menos a desejar a mesma, abrindo-se de sentimentos para com esta. Sunhi sai quase sem aviso, rejeitando os avanços do ex-namorado, enquanto este fica só, com o álcool e o acompanhamento da banda sonora que contribui para uma atmosfera meio cómica no interior de um drama humano. Por sua vez, Munsu decide visitar Jaehak (Jung Jae-young), um amigo (também ele realizador de cinema) com quem vai beber soju no Café Arirang, embriagando-se e falando muito de mulheres, ou melhor, de Sunhi, enquanto este último o escuta atentamente, tendo a seu lado a dona do espaço. No dia seguinte, Sunhi recebe a carta do professor, supostamente escrita com honestidade, com o conteúdo da mesma a não ser totalmente do seu agrado, uma situação que vai conduzir a protagonista a tentar alterar a posição do docente, excercendo o seu charme sobre este durante uma conversa à mesa, onde comem e bebem, e Choi abre-se de sentimentos para com esta. Pouco depois deste encontro, Choi encontra-se com Jaehak, surgindo algo diferente depois do encontro com Sunhi, com esta a ter no professor o mesmo efeito de transformação que em Munsu, enquanto o personagem interpretado por Jung Jae-young tem de lidar com o efeito causado pela misteriosa jovem nos seus dois amigos, com estes momentos a proporcionarem algo muito típico das obras de Hong Sang-soo, que passa pela quase repetição das mesmas cenas e diálogos, explorando distintas facetas dos personagens, da narrativa e até do espaço diegético da mesma. Jaehak acaba por se deparar com Sunhi, acabando também ele por beber à mesa com esta e comer frango frito, acabando por ceder à tentação causada pela protagonista (ambos têm a companhia da dona do Café Arirang, que repete o diálogo do frango que teve com Munsu). Temos assim três figuras masculinas a orbitar em volta da protagonista, uma jovem mulher algo misteriosa, que os encanta sem nunca revelar totalmente a sua personalidade, enquanto Hong Sang-soo se diverte a jogar com os seus personagens masculinos, algo visível no último terço onde estes protagonizam um momento deveras caricato no Palácio Changgyeonggung. Estes são três figuras meio trágico-cómicas: Munsu é um realizador sem grandes perspectivas de futuro, que ainda nutre amor por Sunhi. Choi é um professor que tem um fraquinho pela aluna, mudando de opinião com grande facilidade devido aos encantos desta. Jaehak é um realizador estabelecido e até chega a dar conselhos a Munsu, mas também ele cede junto de Sunhi, revelando paradigmaticamente a volatilidade da figura masculina perante a mulher, com estes homens a pensarem conhecer esta a ponto de lhe poderem dar conselhos. A desconstrução das figuras masculinas (e por vezes quase ridicularização) já tinha sido exposta em várias obras de Hong Sang-soo (para não dizer quase todas), sobressaindo talvez o protagonista de "Night & Day", um pintor falhado, que vai para França tendo em vista a esconder-se das autoridades da Coreia do Sul e acaba por se envolver com uma jovem estudante de arte apesar de ser casado, sendo muito movido por desejos e inquietações. Os personagens de Hong Sang-soo são assim, movem-se pelos desejos, deixam-se levar muitas das vezes pelas emoções, são muitas das vezes artistas, maioritariamente ligados ao ramo do cinema (na maioria falhados, como podemos ver em filmes como "Oki's Movie"), bebem imenso e expõem todas as suas fragilidades, algo visível em "Our Sunhi".

 Por toda esta familiaridade temática e até de estilo, com o cineasta a optar pelos planos maioritariamente estáticos e longos, esporadicamente cortados pelos seus zooms inquietos, entrar numa obra de Hong Sang-soo, conhecendo a sua filmografia, torna-se quase um revisitar de velhos amigos para o qual até o elenco contribui. Veja-se o caso de Jung Yoo-mi, a intérprete de Sunhi, uma actriz que participou em vários filmes de Sang-soo, tais como "Like You Know It All", "Oki's Movie" e "In Another Country", para além da curta "Lost in the Mountains". Lee Sun-kyun é um habitué das obras do cineasta, tendo integrado o elenco de "Night and Day", "Oki's Movie" e "Nobody's Daughter Haewon". Ye Ji-won integrou o elenco de "On the Occasion of Remembering the Turning Gate", "HaHaHa" e "Nobody's Daughter Haewon", ou seja, estamos perante um conjunto de actores e temáticas que nos deixam perante algo de muito próprio quando mergulhamos no universo narrativo deste cineasta. Este tem uma perícia enorme para captar os sentimentos humanos e criar diálogos sublimes, aparentemente banais, mas que se ajustam na perfeição às suas narrativas e aos relacionamentos dos seus personagens, apelando por vezes ao improviso dos actores e criando com estes personagens muito próprios das suas obras. Sunhi é uma das personagens marcantes dos seus filmes, uma jovem misteriosa, algo enigmática, conhecida por ficar incontactável durante largo tempo, que mexe com os sentimentos dos homens, com estes a terem todos uma opinião formada sobre a mesma, embora as mesmas não correspondam totalmente ao que Hong Sang-soo nos apresenta. Muitas das vezes pensamos que conhecemos bem algumas pessoas a ponto de lhes darmos conselhos, estes homens julgam conhecer Sunhi a ponto de poder julgar a mesma, enquanto esta surge pronta a não se envolver sentimentalmente com figuras masculinas, pretendendo tirar uma pós-graduação e investir na sua pessoa, ao mesmo tempo que permite a Jung Yoo-mi sobressair pela positiva e continuar uma relação profissional proveitosa com Hong Sang-soo. Diga-se que o restante elenco, em particular o trio que dá vida aos personagens masculinos, é sólido, espelhando a volatilidade dos seus personagens e os seus comportamentos marcados por desejos, nem sempre racionais, e prontos a terem diálogos meio introspectivos quando estão sob o efeito do álcool. Marcado pelo estilo autoral de Hong Sang-soo, "Our Sunhi" é mais uma preciosa entrada no seu invejável currículo, preenchido por obras sublimes e marcantes, que deixam marca e não geram indiferença. 

Título em inglês: "Our Sunhi". 
Título original: "U ri Sunhi".
Realizador: Hong Sang-soo.
Argumento: Hong Sang-soo. 
Elenco: Jung Yoo-mi, Kim Sang-joong, Lee Sun-kyun, Jung Jae-young. 

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