As obras de Hong Sang-soo contam quase sempre com artistas como protagonistas. Recuemos desde logo a "The Day the Pig Fell into the Well", onde tínhamos Hyo-seop, um escritor; "Virgin Stripped Bare by Her Bachelors" onde tínhamos um realizador, uma argumentista e o dono de uma galeria de arte; "On the Occasion of the Turning Gate" onde tínhamos um actor como protagonista; "Woman is the Future of Man" onde tínhamos um realizador e um professor de arte ocidental; um realizador e uma actriz em "Tale of Cinema"; um realizador em "Woman on the Beach"; um pintor em "Night and Day". Não é por isso uma novidade encontrarmos um realizador de filmes independentes como protagonista de "Like You Know it All", nomeadamente Goo Kyeong-nam (Kim Tae-woo), um indivíduo que parece partilhar muitas experiências pessoais de Hong Sang-soo, ou não estivéssemos perante um cineasta que se dirige para um festival de cinema, em Jecheon, tendo em vista a trabalhar como jurado do mesmo. As conversas que este tem com os restantes membros do júri e todo o ambiente que rodeia o mal-estar do protagonista para com a festa do festival surgem marcadas por um enorme realismo, parecendo que muito foi inspirado em episódios reais experienciados por Hong Sang-soo. Veja-se quando este ironiza com alguma veneração para com realizadores populares cujo estatuto ainda não merece tanto "peneirismo", com o colega de profissão a ter direito a uma retrospectiva quando tem apenas três obras realizadas, ou até a presença da actriz pornográfica (Eun Joo-hee) que se quer lançar nos filmes "a sério" e procura meter conversa com os realizadores, bem como os jurados do festival a dormirem durante os filmes que estão a julgar. Não estamos perante a simples história de um realizador, mas também de um comentário de Hong Sang-soo sobre a arte, os filmes e os festivais de cinema, ou não fosse ele próprio um realizador mais prestigiado no circuito de festivais do que no circuito comercial, tendo certamente um conjunto de experiências que ajudaram a elaborar esta narrativa onde não faltam as suas habituais imagens de marca.
Entre essas imagens de marca encontram-se os célebres momentos em que os personagens bebem mais do que a conta enquanto estão à mesa, dialogam e expõem as suas fragilidades, defeitos, virtudes e inquietações, para além dos zoom in e zoom out que marcam as obras de Sang-soo desde "Tale of Cinema", os movimentos de câmara laterais, não faltando ainda as cenas onde os personagens sonham e só posteriormente nos apercebemos desta situação. Em "Like You Know it All", Hong Sang-soo volta a dividir a narrativa em duas partes (algo semelhante à estrutura de "On Occasion of the Turning Gate"). Na primeira encontramos Goo Kyeong-nam a ser apresentado ao restantes jurados por Gong Hyeon-hee, a programadora do festival. Entre os jurados encontram-se elementos como Oh Jin-sook, uma actriz que este admira, algo que demonstra mais do que uma vez. No local este tem de lidar com a admiração colectiva por um realizador afamado (Kim Yeon-soo), que outrora era admirador da sua pessoa, mas agora parece ignorar essa situação. Pouco interessado no ambiente que rodeia o festival, Kyeong-nam tem uma lufada de ar fresco quando encontra Boo Sang-yong, um antigo parceiro de negócios, cujos problemas com o álcool levaram a abandonar a empresa de produção três meses depois, embora a amizade tenha permanecido entre ambos. Sang-yong convida Kyeong-nam a jantar em sua casa (e beber álcool), onde se encontra a esposa do primeiro, uma mulher algo desequilibrada, com diálogos filosóficos, com uma certa pitada de loucura a fazer recordar os melhores jantares constrangedores dos quais já tivemos vontade de fugir. O jantar não termina da melhor maneira, tal como o papel de Kyeong-nam como jurado, decidindo regressar a Seoul, levando os DVDs com os filmes consigo e expondo a sua incapacidade em cumprir promessas. Este tem ainda uma altercação com Gong Hyeon-hee, a programadora do festival, devido a esta ter sido sujeita a violência sexual após este a ter deixado sozinha e alcoolizada num jantar com vários elementos. Temos assim presente a desconstrução da figura masculina coreana, com Hong Sang-soo a expor-nos perante um personagem algo peculiar, embora típico dos seus filmes, que fuma, bebe, não parece conseguir atingir o sucesso a nível profissional e pessoal.
A narrativa avança para doze dias depois destes acontecimentos, em Jeju, onde Goo vai apresentar um filme seu numa aula de um colega. Nessa aula talvez tenhamos um dos comentários mais directos de Hong Sang-soo sobre os seus filmes, através de um personagem, nomeadamente quando Goo é questionado por uma aluna com a seguinte pergunta: "Eu amo filmes e sei um bocado sobre como fazê-los. Mas porque é que você faz filmes assim? (...) Eu não entendo porque você faz filmes assim. As pessoas não entendem os seus filmes. Então porque continua a fazer isso?". A pergunta é desde logo paradigmática dos comentários de alguns dos seus detractores, surgindo de forma pedagógica para Hong Sang-soo debater o cinema, em particular o seu, e colocá-lo em confronto com o espectador. Essa abertura de Sang-soo em expor a visão do seu cinema é visível na resposta de Goo: "Se você não entendeu, não entendeu e pronto. Eu apenas faço os filmes, o resto depende de vocês. Os meus filmes não são aqueles dramas que estão acostumados a ver. Nenhuma mensagem clara, ambígua no melhor dos casos. Sem imagens bonitas também. Eu só sei fazer uma coisa. Eu mergulho num processo sem ideias preconcebidas. Eu reúno as peças que encontrei e transformo-as numa só. Você pode até não gostar do resultado. Pode ser que ninguém goste. Eu acredito que as coisas mais preciosas da vida são livres. Eu quero ser despretensioso". Algo que recebe a resposta: "Você não é um realizador de cinema, mas sim um filósofo". Estamos assim perante a exposição de algumas das ideias do que é o cinema para Hong Sang-soo e de algumas críticas a que este é sujeito, num dos filmes mais interessantes do cineasta neste quesito de questionar o cinema. Em certo sentido a questão de chamarem o protagonista de filósofo até faz algum sentido, sobretudo se tivermos em atenção as conversas sobre arte, liberdade, entre outras ao longo do filme. Pouco depois, Goo reencontra Yang Cheon-soo, um pintor e antigo professor, um artista que domina a arte da palavra e gera enorme admiração, um pouco como o realizador popular na primeira parte do filme.
Cheon-soo é casado com Go Soon, uma antiga namorada do protagonista. Escusado será dizer que este trio terá um jantar bastante semelhante ao do protagonizado na primeira metade do filme, onde não faltará álcool, diálogos reveladores e momentos constrangedores. As estruturas das duas partes são bastante semelhantes, com momentos e diálogos praticamente a tocarem-se, não faltando as apresentações iniciais ao espaço, um breve comentário sobre cinema e os filmes, momentos à mesa regados a soju num espaço rodeado de público e posteriormente num espaço intimista, até as relações entre os personagens se tornarem mais complexas e se começarem a desconstruir. Hong Sang-soo é bastante bem sucedido na criação e desconstrução das ligações humanas, contando com um conjunto de diálogos dignos de destaque e uma problematização sobre o cinema raramente vistas, enquanto explora elementos típicos das suas obras, enquadrando os mesmos numa nova realidade, beneficiando das boas interpretações dos vários elementos do elenco, em particular, Kim Tae-woo e dois elementos femininos: Jung Yoo-mi e Go Hyun-jung. Os três já tinham colaborado em obras anteriores de Hong Sang-soo, uma parceria que tem dado frutos, com Tae-woo a ser o paradigma do homem coreano complexo e algo falhado em vários níveis das obras do cineasta, enquanto Yoo-mi surpreende como uma mulher meio neurótica e Hyun-jung pela abertura da sua personagem em relação ao sexo. As relações sexuais sempre estiveram presentes nas obras de Sang-soo e "Like You Know it All" não é diferente, embora estes actos estejam tipicamente representados com a estranheza própria do cineasta, capaz de retirar boa parte do erotismo inerente às mesmas. Sang-soo volta ainda a beneficiar de um bom trabalho de fotografia, sobressaindo a paradigmática utilização da cor, com os tons verdes da roupa (e as bolinhas verdes do chapéu de chuva) de Gong a condizerem com o cenário verdejante em que esta discute com o protagonista, bem como com o professor. Nota-se uma procura de conjugar o guarda-roupa com os cenários e os sentimentos, numa obra que tem como protagonista um realizador com sérios problemas de afirmação junto dos espectadores mainstream, que se procura manter fiel aos seus ideais e princípios, um pouco à imagem de Hong Sang-soo. "Like You Know it All" revela-se provavelmente como uma das obras mais pessoais de Hong Sang-soo, onde este expõe e reflecte a sua visão sobre o cinema e os seus filmes, abrindo ainda mais o debate sobre os mesmos, enquanto nos expõe à sua singularidade.
Título original: "Jal aljido mothamyeonseo".
Título em inglês: "Like You Know it All".
Realizador: Hong Sang-soo.
Argumento: Hong Sang-soo.
Elenco: Kim Tae-woo, Uhm Ji-won, Go Hyun-jung.


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