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Resenha Crítica: "Election"

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

 Embora a violência esteja muito presente ao longo de "Election", um dos filmes mais populares de Johnnie To, esta surge quase sempre associada aos jogos de poder no interior da Sociedade Wo Shing, uma das Tríades mais poderosas e numerosas de Hong Kong. Na fase inicial do filme encontramos a disputa pela liderança entre Lok (Simon Yam) e Big D (Tony Leung Ka-fai), enquanto estes procuram conquistar os votos dos vários elementos do grupo criminoso organizado de forma a chegarem à liderança. Temos desde logo presentes os jogos de poder e a procura de ambas as partes em estabelecerem redes de influência no interior do grupo criminoso, ao mesmo tempo que apresentam promessas várias, existindo toda uma estrutura intrincada no interior desta organização, onde a conquista do poder passa exactamente pela forma como os candidatos aglutinam ou não os vários membros à volta das suas pessoas. Os comportamentos dos dois candidatos são amplamente dicotómicos. Big D é fleumático, emocionalmente instável e violento, que não tem problemas em mandar um dos seus homens comer os cacos de uma colher. Lok é um líder mais calmo, que promete harmonia e prosperidade ao grupo criminoso. Os momentos iniciais de "Election" são marcados pela exposição dos vários elementos dos grupos e da importância dos Tios, os elementos anciãos, bem como os irmãos, nomenclaturas familiares que exploram essa representação do grupo como uma célula quase familiar, que depende de um patriarca, no caso, o líder. A escolha recai em Lok, algo que não cai bem em Big D, que logo inicia uma onda de violência, procurando impedir a entrega do Bastão que simboliza a liderança. Enquanto esta disputa parece estar ao rubro, as autoridades, através da figura do Superintendente Hui (David Chiang), prendem várias figuras relevantes da Tríade, incluindo o Tio Teng, Tio Cocky, Tio Monk, Big D e Lok. Na cela, dominada por tons azulados, Big D revela a sua intenção de iniciar um grupo dissidente, enquanto os homens ligados a si procuram capturar o bastão e a violência entre as partes fica ao rubro.

Mais do que desenvolver personagens particulares ou efectuar estudos aprofundados sobre os mesmos, Johnnie To procura elaborar uma intrincada teia de relacionamentos e explorar a complexidade no interior de um grupo da Tríade, enquanto os elementos deste grupo criminoso disputam o poder e travam-se de razões por um bastão simbolizador da liderança (que em certo momento do filme se encontra na China, com To a deixar explicita uma mensagem política). A "Eleição" do título é o ignitor da acção, o elemento que coloca a Sociedade Wo Shing em polvorosa, com as regras associadas a este ritual centenário a não serem respeitadas devidamente pelos diferentes elementos, com Big D a ser o expoente máximo desse desacordo. Num universo narrativo povoado por uma miríade de personagens, Big D é o elemento que mais sobressai, um ser humano violento, interpretado com a intensidade e talento por Tony Leung, expondo a imprevisibilidade e violência deste no seio deste grupo criminoso organizado. Pelo meio, a polícia tenta derrubar o grupo criminoso (ou pelo menos tenta controlar o mesmo), embora pouco pareça conseguir fazer para manter estes elementos em cativeiro, sendo que no exterior da prisão desenrola-se um violento conflito pela posse do bastão. Este é um símbolo de poder e liderança que os gangsters não parecem descurar, um objecto diminuto na proporção mas enorme no seu significado, simbolizador da relevância dada por estes indivíduos aos rituais tradicionais, numa obra marcada por um ritmo inquietante, pouco dada a momentos mortos ou de grande reflexão, avançando inexoravelmente para um desfecho aparentemente imprevisível, cadenciado por uma banda sonora adequada e um trabalho de fotografia assertivo. A fotografia tem um papel de relevo, com as imagens em movimento a exporem-nos a um território de Hong Kong marcado pelo crime e traições, valores éticos e morais muito próprios da parte de um grupo criminoso, onde os seus habitantes raramente surgem isolados diante nós. Quentin Tarantino disse que "Election" era o "melhor filme do ano”. Um elogio que pode ser considerado exagerado ou não, mas o que parece mais certo é que Johnnie To desenvolveu um thriller violento e tenso, onde somos expostos a uma complexa teia de relacionamentos no interior de um grupo criminoso organizado de Hong Kong, onde a luta pelo poder traz consigo uma série de imprevisíveis eventos.

Título original: "Hak se wui".
Título em inglês: "Election".
Realizador: Johnnie To.
Argumento: Yau Nai-Hoi e Yip Tin-Shing.
Elenco: Simon Yam, Tony Leung Ka-fai, Louis Koo, Nick Cheung.  

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