Entrar nas obras de Hong Sang-soo é penetrar num terreno muito próprio que forma um corpo algo homogéneo, onde as várias temáticas se unem na maioria dos filmes e beneficiam quem acompanhou boa parte dos trabalhos do cineasta. "Hahaha", a décima longa-metragem realizada por Hong Sang-soo, não é diferente, com este a voltar a ter elementos ligados às artes como protagonistas, no caso, Jo Moon-kyung (Kim Sang-kyung), um professor desempregado e realizador de cinema, e Bang Joong-sik (Yoo Jun-sang), um crítico de cinema e amigo do primeiro. Os dois encontram-se quando Moon-kyung estava prestes a abandonar a Coreia do Sul em direcção ao Canadá, trocando memórias dos episódios positivos que viveram em Tongyeong, sempre com muito álcool pelo meio, ou não estivéssemos numa obra de Hong Sang-soo. A estrutura nem sempre é a mais fácil de acompanhar, com a história dos dois personagens a ser contada individualmente em flashbacks, narrados a espaços por estes enquanto bebem e dialogam no presente, sendo exibidos maioritariamente em imagens a preto e branco estáticas, ao contrário dos momentos do passado, cheios de cor e sentimentos por rebentar. Embora não se tenham apercebido, estes travaram conhecimento com alguns dos mesmos personagens em Tongyeong, provavelmente até no mesmo período de tempo, permitindo a Hong Sang-soo explorar as duas histórias separadas que decorrem no mesmo espaço, trocando-as por vezes quase sem aviso. Jo Moon-kyung foi a Tongyeong para visitar a sua mãe, a dona de um pequeno restaurante especializado na confecção de baiacu, antes de partir. A relação entre os dois parece ser algo problemática, com este a oferecer um boné à mãe e esta a não achar lá muita piada a essa peça de vestuário, revelando uma diferença de gostos e valores notória.
No território, Jo Moon-kyung conhece um amigo da sua mãe, que o leva a visitar o museu local, onde conhece Wang Seong-ok (Moon So-ri), uma guia cultural pela qual nutre algum interesse, embora esta até o afaste devido a estar comprometida com Kang Jeong-ho, um poeta e antigo marine. Isso não impede que Moon-kyung por vezes assuma uma postura meio stalker em busca da mulher que desperta a sua atenção e desejo, procurando conquistá-la com os seus gestos, tendo pelo caminho uma das célebres cenas dos filmes de Hong Sang-soo, onde ficamos perante os sonhos dos personagens. Desta vez, o protagonista fica perante o almirante Yi, uma figura histórica relevante da Coreia do Sul, com Hong Sang-soo a ter de gerir com pinças a situação para o encontro não cair no desrespeito caricatural, algo que poderia gerar algum celeuma no seu país natal. Por sua vez, Joong-sik encontra-se no território em segredo com Ahn Yeon-joo, uma hospedeira de bordo que é sua amante. Joong-sik é amigo de Kang Jeong-ho, um poeta que se encontra envolvido com Wang Seong-ok e também tem uma amante. Kang Jeong-ho nem sempre parece manter o mesmo interesse por Seong-ok, afastando-se gradualmente desta e discutindo com a mesma, algo visível numa discussão sobre os presentes que esta lhe dá. O personagem interpretado por Yoo Jun-sang contacta ainda com a mãe do seu interlocutor, uma senhora que tem um restaurante aprazível que gosta de ser tratada por mãe pela parte dos clientes mais fiéis. Moon-kyung e Joong-sik trocam experiências, embora não saibam que contactaram de perto com as mesmas pessoas, algo que permite explorar questões ligadas com as memórias e o espaço, mas também as coincidências que marcam a existência humana. Ficamos assim perante um universo narrativo próprio de Hong Sang-soo, onde este constrói um conjunto de estranhas relações, marcadas por diálogos próprios de uma realidade criada pelo cineasta, pontuadas por algum humor, embora no final dê aos seus personagens um destino algo surpreendente, sobretudo se tivermos em linha de conta os filmes anteriores que realizou.
Voltamos a ter as célebres cenas à mesa marcadas por muito consumo de bebidas alcoólicas (desta vez makgeolli), onde os personagens dialogam e muito, os acontecimentos aparentemente espontâneos que se sucedem na vida dos protagonistas, os relacionamentos amorosos intrincados, os momentos constrangedores, os zooms inquietos que quebram os planos fixos, os movimentos de câmara laterais, entre outros elementos. "Hahaha" marca ainda o regresso de Hong Sang-soo às narrativas centradas em mais do que um personagem, algo que acontecera em filmes como "The Day a Pig Fell into the Well", "The Virgin Stripped Bare by Her Bachelors", entre outros, tendo sido quebrado em filmes como "Like You Know It All". Em "Hahaha" (cada Ha corresponde a "Verão"), Moon-kyung é um professor recentemente demitido, realizador desempregado, que procura na hipótese do Canadá uma mudança de vida. Este segue Wang Seong-ok, procura conquistar os seus afectos, enquanto no presente fala e bebe muito com Joong-sik, ou seja, é o típico personagem de Hong Sang-soo, recheado de incertezas em relação à vida e ao amor, movido por desejos, cheio de defeitos e muitas virtudes por explorar. O personagem eficazmente interpretado por Yoo Jun-sang tem na relação adúltera com Ahn Yeon-joo um dos elementos definidores desta passagem por Tongyeong, procurando decidir-se sobre revelar ou não o seu amor pela amante. Joon-sik forma ainda uma amizade com o poeta, dialogando com este sobre as obras literárias do mesmo, enquanto é apresentado pelo artista a várias outras pessoas. Por sua vez, o poeta é um mulherengo, que também conta com as suas falhas, procurando seduzir as mulheres, embora nem pareça fazer um grande esforço. Diga-se que os três personagens são obrigados a decisões relevantes para as suas vidas durante este período de tempo em que se desenrola a narrativa, embora a leveza com que Hong Sang-soo explora esta situação por vezes possa induzir em erro e descurar um olhar mais atento para o foco que este coloca nas relações humanas.
Estamos assim perante três figuras masculinas complexas (não podemos descurar o papel do poeta), que encaram o amor e os relacionamentos com as mulheres de formas distintas, que procuram neste local definir as suas vidas e acabam por criar novas memórias. Não é algo de novo os personagens das obras de Hong Sang-soo dirigirem-se para uma cidade mais pequena, rodeada pelo mar, tendo em vista a definirem as suas vidas. Já fora assim em "The Power of Kangwon Province", "On the Occasion of Remebering the Turning Gate", "Woman on the Beach" e "Like You Know it All" e é assim em "Hahaha", onde o cineasta joga com o espaço e as memórias da dupla de protagonistas, que nos vão relatando as suas visões dos acontecimentos que viveram. Este jogo é algo de bastante interessante, sobretudo se tivermos em conta que somos colocados perante os pontos de vista dos personagens, enquanto nos relatam um conjunto de episódios que se desenrolaram num restrito espaço de tempo. O território é exposto com eficácia, mas o que sobressai mesmo são os relacionamentos peculiares tão típicos dos filmes de Hong Sang-soo, onde os personagens expõem os seus pontos de vista, as suas qualidades, defeitos, mostram as suas vulnerabilidades e bebem muito. Não existe volta a dar, nos filmes de Hong Sang-soo raro é o personagem que não liberta o seu gosto pelo álcool, com o realizador a expor os coreanos como indivíduos bastante dados aos prazeres de Baco, não só por hedonismo mas também por fraqueza. Por vezes parece que cai no exagero e quase cai na caricatura para expor o seu estilo (os constantes brindes no final de cada vinheta/trecho que relatam), mas no fim consegue amarrar a história com uma enorme leveza e naturalidade, explorando os dramas, constrangimentos e momentos de humor proporcionados pelos seus personagens. O cineasta volta ainda aproveitar para fazer subtis comentários sobre a arte e até a história, algo visível no exacerbamento que a guia dá ao mito do Almirante Yi, num filme que não precisa que o idolatrem para figurar nesse corpo coeso formado pelas obras de Hong Sang-soo.
Título original: "Hahaha".
Realizador: Hong Sang-soo.
Argumento: Hong Sang-soo.
Elenco: Kim Sang-kyung, Yoo Jun-sang, Moon So-ri, Ye Ji-won.


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