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Resenha Crítica: "Ent(r)e"

domingo, 5 de janeiro de 2014

Com uma atmosfera envolvente e inquietante, que nos conduz para o interior de uma história de terror marcada por alguma violência e sensualidade, "Ent(r)e" convida-nos a penetrar no Mundo de Simone (Vanessa Guimarães), uma criatura sedutora e matadora, a quem é dada o corpo de uma bela mulher, cuja presença neste Mundo se encontra num final de ciclo. Esta encontra-se no planeta Terra há décadas, como salienta o Dr. Orlof (Alex Gomes), um indivíduo enigmático com quem esta contacta após eliminar mais uma vítima. A casa de Orlof, luxuosa e adornada por belas obras de arte, incluindo uma cópia de "Het Meisje met de Parel" de Johannes Vermeer, é o paradigma destes personagens, com a opulência exterior a esconder uma malevolência interior. Simone procura que Orlof não lhe retire do seu corpo humano e não a faça regressar para a clausura junto das suas "irmãs", dando-lhe mais tempo junto da humanidade, um desejo que procura cumprir a qualquer custo e gera uma enorme tensão entre os dois, algo que promete colocar em perigo o balanço entre os dois mundos e trazer graves consequências, com esta protagonista a desafiar um conjunto de regras que não podem ser quebradas. Realizado por Tiago Inácio, "Ent(r)e" conta com as limitações óbvias de uma curta desenvolvida com baixo orçamento, mas supera-as com alguma facilidade, resultando numa obra capaz de explorar brevemente a sua premissa, contando com um trabalho de fotografia e uma banda sonora capazes de entroncar na atmosfera misteriosa da obra, que conta ainda com um notório cuidado na escolha dos cenários (veja-se a casa de Orlof, um local misterioso onde as outras criaturas se encontram presas) e na caracterização (Inna Hawker como a criatura que sai do corpo de Simone), existindo toda uma procura em envolver o espectador na história desta mulher misteriosa cuja identidade é-nos brevemente revelada ao longo do filme. Esta figura feminina é um enigma, que nunca chegamos verdadeiramente a desvendar, que procura permanecer entre os humanos embora esconda dentro de si um monstro, a sua verdadeira faceta, tendo numa possível convivência com a humanidade um desafio e prazer, estabelecendo um jogo de poder com as figuras masculinas, onde a morte parece ser o destino mais provável daqueles que de si se aproximam. 

 As cenas protagonizadas por Simone são esporadicamente entrecortadas pela presença súbita da criatura misteriosa guardada no seu interior e das suas "irmãs", que representam a sua verdadeira identidade, embora escondida, por vezes fazendo-nos brevemente recordar "Species", numa obra que remete ainda para o ambiente dos filmes de terror de série b, contando com algumas limitações, tais como a pouca exploração das motivações de Simone e aquilo que a conduz a querer ficar entre os humanos, bem como em relação ao seu dilema moral e ao papel desta espécie junto dos humanos ou à figura de Orlof, ficando tudo muito pela rama, quando esta tem potencial para dar muito mais. E este é também um dos elementos positivos de "Ent(r)e", de nos fazer esperar mais, de nos inquietar e deixar no ar a ideia de que esta seria uma ideia bastante boa para futuramente Tiago Inácio explorar numa longa-metragem (sem menosprezo para as curtas), provavelmente até com a mesma actriz como protagonista. Vale ainda a pena realçar o desempenho de Vanessa Guimarães como Simone, a face humana da entidade enigmática que se esconde no interior do corpo de uma bela mulher, com esta a conseguir criar algum mistério em volta da sua personagem e a credibilizar a mesma. Se Vanessa Guimarães destaca-se pela positiva como Simone, já Alexandre Gomes por vezes apresenta uma excessiva teatralidade, onde notamos que está a representar um indivíduo abastado, faltando uma certa naturalidade que poderia beneficiar o personagem. No entanto, existe muito a ter em atenção nesta curta, notando-se uma maior maturidade de Tiago Inácio em relação a "Drink!", o seu anterior trabalho como realizador, curiosamente também protagonizado por uma mulher, onde entrecortava a espaços a acção do presente com cenas do passado, um pouco como efectua com a presença da criatura que está no interior de Simone e as criaturas que surgem a espaços a cortar as cenas da sua forma humana, num filme que consegue desenvolver uma mitologia própria, que já passou por oito festivais de cinema, quatro dos quais nos EUA, algo revelador de alguma aderência que tem conseguido obter, e da sua capacidade de nos surpreender pela positiva. Em "Ent(r)e", assistimos à criação de uma atmosfera marcada por algum mistério e inquietação, sempre associada a Simone, uma mulher algo ambígua, bela no seu exterior, que esconde um monstro no seu interior, que até pode remeter para o jogo entre o ser e o parecer da sociedade contemporânea, onde a aparência pode iludir. Quem não ilude é "Ent(r)e" que, embora as limitações assinaladas, revela-se uma curta com uma narrativa fluída e interessante de acompanhar, capaz de criar uma mitologia própria, a espaços inquietante, que pode e tem potencial para sobressair.

Título: "Ent(r)e"
Realizador: Tiago Inácio.
Argumento: Tiago Inácio.
Elenco: Vanessa Guimarães, Alexandre Gomes, Henrique Pereira, Inna Hawker.

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