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Resenha Crítica: "A Colt is My Passport"

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

 Representante marcante das obras produzidas pela Nikkatsu Corporation, "A Colt is My Passport" mescla elementos dos filmes noir dos EUA, spaguetti westerns (a banda sonora é claramente evocativa deste género, fazendo recordar os temas de Ennio Morricone nos filmes de Sergio Leone) e até os valores de lealdade dos filmes de samurais para nos colocar perante Shuji Kamimura (Joe Shishido), um gangster que é designado pelo seu superior para eliminar Shimazu (Kanjûrô Arashi), um chefe da máfia que se tornou demasiado ganancioso e se intrometeu em negócios de grupos rivais. Kamimura conta com a colaboração de Shun Shiozaki (Jerry Fujio), o seu parceiro, amigo e motorista, tendo com este uma ligação de enorme lealdade, a fazer recordar os códigos dos antigos samurais, com os dois a dirigirem-se a um hotel com vista privilegiada para uma reunião de negócios onde se encontra Shimazu e os seus homens. Exímio a disparar, Kamimura elimina Shimazu, bem como os homens do chefe do crime que se encontravam presentes na reunião, onde estava ainda o líder do protagonista, algo que causa alguns inconvenientes ao superior. Pouco tempo depois do crime, os personagens interpretados por Shishido e Fujio recebem o pagamento e procuram fugir em direcção ao aeroporto, um desiderato dificultado pelos homens do falecido, agora sob as ordens do filho deste. O superior ordena a Kamimura e Shun que se refugiem no Motel Nagisakan em Yokohama, tendo em vista a contactarem Tsugawa (Asao Uchida), um aliado que supostamente lhes poderá prestar apoio. Tudo piora quando o filho de Shimazu oferece um acordo ao chefe de Kamimura, que passa pelo assassinato do personagem interpretado por Shishido em troca de uma cooperação nos negócios, algo que coloca definitivamente o anti-herói em perigo. Kamimura é apenas uma pequena peça entre manda-chuvas do mundo do crime, sendo um assassino que pouco vale numa estratégia mais lata de jogos de poder intrincados em espaços citadinos limitados, num universo narrativo onde as vidas humanas raramente estão a salvo e todos parecem cometer os seus pecados. O protagonista até é um dos poucos elementos com valores morais, não abandonando nunca Shun, tendo um caso com Mina (Chitose Kobayashi), a bela empregada do motel, e em Joe Shishido um protagonista à altura deste intenso personagem.

Joe Shishido conta com mais de cento e trinta filmes ao longo da sua carreira, tendo integrado o elenco de várias obras da Nikkatsu Corporation, incluindo o marcante "Branded to Kill" de Seijun Suzuki, sendo que em "A Colt is My Passport" este surge como um personagem algo obscuro, um assassino que deveríamos odiar mas até é capaz de gerar a nossa simpatia e compaixão, sendo o elemento que mais brilha de uma obra que pode ser associada à chamada "Nouvelle Vague Japonesa". Reveladora de um contexto distinto do Japão no período do pós-Guerra, esta "Nova Vaga" contou com o apoio de estúdios como a Nikkatsu (algo que a distingue da Nouvelle Vague francesa), capazes de apostar em cineastas relativamente desconhecidos, que apresentavam obras de pendor algo crítico e polémico (veja-se o já citado Suzuki). No caso de "A Colt is My Passport" encontramos elementos como o criminoso como protagonista, uma exposição de uma sociedade algo machista em relação ao tratamento da mulher como podemos ver no hotel onde quase todos tratam Mina como um objecto, o ambiente dominado pelo crime, os personagens de carácter ambíguo, também a fazer recordar os filmes noir norte-americanos. A obra insere-se ainda nos mukokuseki akushon, que remetem para o termo "acção sem limites", aplicado para as obras lançadas pela Nikkatsu a partir dos anos 50, num período seguinte ao final da censura aplicada pelos EUA ao território, sendo marcadas por elementos dos filmes noir, gangsters e os filmes de detectives norte-americanos. A fotografia do filme remete também para os filmes noir, sendo filmado a preto e branco, explorando as sombras, criando uma atmosfera tensa e uma inquietação gradual, culminando num último terço a fazer recordar alguns tiroteios cheios de estilo dos western (a atenção dada à preparação das armas a espaços faz recordar os westerns de Leone), culminando numa engenhosa e marcante armadilha. Vale ainda a pena realçar a atenção dada aos rostos dos personagens, com os close-ups a realçarem a aparente impassibilidade de Kamimura (faz imensas vezes vir à memória os yakuzas interpretados por Takeshi Kitano), um individuo que parece aceitar quase sempre o que o destino tem para dar, sempre sem fugir das responsabilidades e do seu forte sentido de ética, ao longo desta surpreendente obra cinematográfica. Temos ainda a presença de Jerry Fujio como o melhor amigo do protagonista, um personagem que toca guitarra como hobbie e tem em Kamimura um companheiro leal, e Chitose Kobayashi como Mina, uma mulher delicada com um passado conturbado. Mescla de elementos ocidentais e nipónicos, "A Colt is my Passport" é um exemplo de uma película marcante produzida pela Nikkatsu, tendo em Takashi Nomura um realizador pronto a gerir com minúcia as peças que tem à disposição, numa obra que urge ser redescoberta.

Título em inglês: "A Colt is My Passport".
Título original: "Koruto wa ore no pasupooto".
Realizador: Takashi Nomura.
Argumento: Shuichi Nagahara e Nobuo Yamada.
Elenco: Joe Shishido, Jerry Fujio, Chitose Kobayashi, Ryōtarō Sugi.

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