Entre traições de elementos da máfia, coloridos clubes nocturnos, crimes vários, grupos criminosos e muita inquietação, "Tokyo Drifter" apresenta-nos a Tetsuya Hondo (Tetsuya Watari), também conhecido como "Tetsu", um elemento de um grupo da yakuza que se encontra recentemente desactivado, cujo líder, Kurata, pretende dirigir um negócio legal. Perante esta situação, Otsuka, o líder de um grupo rival, decide tentar contratar Tetsuo para o seu gang, mas este último rejeita a oferta, algo que lhe vale um valente espancamento, exibido a preto e branco, numa espécie de prólogo até o ecrã ser invadido por cores, por um Japão entre o passado tradicional e uma abertura ao ocidente, com bares com nomes em inglês e criminosos violentos, que procuram triunfar no meio de um território citadino marcado pela incerteza. A maior incerteza paira sobre o destino de Tetsu, com este a procurar defender a honra do seu chefe, mas a acabar traído por tudo e por todos, incluindo Kurata (Ryuji Kita), o seu líder, mas já lá vamos a essa parte. Kurata contraiu um empréstimo junto de Yoshii, tendo em vista a poder seguir pelo caminho certo e adquirir um edifício, uma dívida de oito milhões de yenes, que terá de ser paga no prazo de quinze dias, caso contrário, o edifício onde este gere os seus negócios será hipotecado e passa para as mãos do hipotecante. Sabendo desta situação, Otsuka (Hideaki Esumi), o líder de um grupo rival, obriga Yoshii a vender-lhe a propriedade, conduzindo a que a dívida passe a estar na sua posse, algo que poderá obrigar Kurata a perder o edifício. A situação sai do controlo, Yoshii é assassinado por "Viper" Tatsuzo, um dos homens de Otsuka, algo que promete colocar o caso ainda mais em ebulição, com os dois grupos criminosos a estarem muito perto de se envolverem em problemas maiores. Para acalmar o ambiente, Tetsuo vê-se na obrigação de sair do território, abandonando Chiharu, a cantora do clube nocturno Alulu que é apaixonada pelo protagonista, sendo enviado para a casa de Shimada em Shonai. Este acaba por ter que se deparar com "Viper" Tatsuzo (Tamio Kawaji), o elemento designado para o eliminar, e até com a traição de Kurata, o homem que tratava como se fosse o seu pai, envolvendo-se numa jornada marcada pela violência, por espaços tão distintos como clubes nocturnos coloridos ou territórios cobertos por neve, onde as pistolas surgem prontas a ser disparadas e este vagabundo da máfia procura sobreviver ao longo desta inquietante e imprevisível obra cinematográfica.
Espectáculo cinematográfico capaz de despertar sensações e emoções fortes, "Tokyo Drifter" apresenta a irreverência própria de Seijun Suzuki, explorando o estilo muitas das vezes em detrimento do conteúdo, apresentando-nos uma história meio desgarrada de gangsters, que sobressai pela sua atmosfera envolvente, onde a sua paleta cromática colorida contrasta com a negritude dos sentimentos de boa parte dos seus personagens. A paradigmática utilização das cores já tinha sido vista em obras de Suzuki como o intenso "Gate of Flesh", onde este conjugava os vestidos de cada uma das quatro prostitutas que integravam o elenco principal para expressar um pouco da personalidade destas mulheres. Em "Tokyo Drifter" temos os clubes nocturnos marcados por paredes coloridas (não só o tom roxo e amarelo esverdeado, mas também vermelho), explorando o que cada cor tem para transmitir numa obra que entronca ainda em filmes de gangsters que a Nikkatsu, a produtora deste filme, desenvolveu ao longo da década de 60, tendo presente o valor da lealdade (tal como em "A Colt is my Passport" e "Branded to Kill"), um criminoso como protagonista, para além de encontrarmos um tom muito próprio de Suzuki, capaz de desconstruir o género (o protagonista é um gangster que utiliza maioritariamente um fato azul bebé com sapatinho branco) e utilizar alguma ironia (o protagonista a cantar de forma completamente aleatória), revelando-se a sua faceta autoral mesmo no interior de um estúdio e provando o fervilhar de ideias e excessos do cinema japonês do género nos anos 60, com este cineasta a ser um dos seus expoentes máximos. Este povoa a obra ainda de clubes nocturnos, invade-a de elementos de filmes noir (não faltando um conjunto de personagens ambíguos) e até dos westerns (veja-se que até temos um mini-saloon num clube nocturno de Kyunshun), onde a repetição do tema musical principal é paradigmático do ambiente que o filme nos transmite: Estamos no Japão do pós-Guerra, onde os novos e os antigos valores se mesclam e homens com o sentido de lealdade de Tetsuo parecem escassear. Este é um criminoso mas mantém sólidos valores morais, sendo um anti-herói muito típico destes filmes da Nova Vaga Japonesa, interpretado por Tetsuya Watari, um actor que mais tarde viria a integrar o elenco de obras marcantes de Kinji Fukusaku, como "Graveyard of Honor" e "Yakuza Graveyeard", atribuindo uma complexidade necessária ao seu protagonista, numa película onde o argumento nem sempre está à altura do seu estilo.
Pronto a despertar sensações, o filme raramente consegue explorar a relação entre o protagonista e a amada, para além de muitas das vezes não conseguir adensar esta guerra de clãs e a procura de Tetsuo em manter alguma da sua independência (um pouco como o realizador a lutar contra a Nikkatsu, que mais tarde até o demitiria por ter "cometido" a obra de arte "Branded do Kill"). Nesse sentido, Seijun Suzuki conseguiu manter uma capacidade de fugir às amarras do estúdio em alguns momentos e realizar obras como esta, imprevisíveis, mesclando elementos de filmes de gangsters, westerns, musicais e até de filmes de espionagem "à 007", brincando com as convenções e criando algo de único. Claro que "Tokyo Drifter" contém algumas falhas básicas, tais como o protagonista partir um copo com a mão, passar a mão pelo casaco do fato de branco e nem o suja da sangue, abraça a amada e também não encontramos vestígios avermelhados, entre outros elementos, num filme que até não poupa na violência e nas mortes. Não faltam tiroteios cheios de estilo, yakuzas com as suas estruturas hierárquicas definidas, valores como a lealdade e um protagonista acompanhado pelo seu fato azul, que protagoniza alguns elementos de enorme intensidade, sobretudo a partir do momento em que é mesmo um enorme alvo a abater. Se é um alvo a abater pelos seus aliados e inimigos, o mesmo não se pode dizer em relação Chiharu, a cantora, cuja relação com o protagonista nem sempre é explorada, ficando mais na memória a música que esta canta (vale a pena realçar que a banda sonora é muitas das vezes pouco adequada à narrativa, atribuindo um tom farsesco à mesma), que ecoa por boa parte do filme, sendo reveladora do ambiente do mesmo, onde esta salienta que "As recordações de Tóquio estão a ir embora". Um passado que não parece regressar, escondido num novo Japão do pós-Guerra e pós-censura dos EUA, exposto num conjunto de cenas rápidas que Suzuki filmou do território, marcado por uma cultura pop evidente e a espaços ocidentalizada, exposta nesta obra meio psicadélica e intensa, num espectáculo visual esfuziante que facilmente nos faz ignorar a convulsão do seu argumento, marcado por elipses várias, humor físico, violência meio anárquica, mas incrivelmente incapaz de nos fazer largar a narrativa por um único segundo que seja.
Título original: "Tôkyô nagaremono".
Título em inglês: "Tokyo Drifter".
Realizador: Seijun Suzuki.
Argumento: Yasunori Kawauchi.
Elenco: Tetsuya Watari, Chieko Matsubara, Hideaki Nitani.


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