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Resenha Crítica: "Killer's Kiss"

sábado, 1 de fevereiro de 2014

 Na sua segunda longa-metragem como realizador, Stanley Kubrick decidiu desenvolver um filme noir que pode não alcançar a maturidade e excelência de "Dr. Strangelove or: How I Learned to Stop Worrying and Love the Bomb", "2001: A Space Odissey", "Lolita", "A Clockwork Orange" e "Full Metal Jacket", algumas das obras marcantes do cineasta, mas nem por isso deixa de ser uma película que merece alguma da nossa atenção. O filme em questão é "Killer's Kiss", um noir relativamente bem conseguido, centrado em Davey Gordon (Jamie Smith), um boxeur em decadência. Nos primeiros momentos em que encontramos Davey, este encontra-se na Grand Central Station de Nova Iorque à espera do comboio para Seattle, relatando-nos os intrincados acontecimentos dos três dias anteriores da sua vida. Entram os flashbacks em acção, muita narração em off e a paradigmática utilização do chiaroscuro e logo entramos neste universo narrativo ambíguo bem ao estilo deste subgénero cinematográfico, onde somos acompanhados à preparação do combate de Davey com Rodriguez e a relação complexa entre Gloria (Irene Kane) e o seu chefe, Vincent Rapallo (Frank Silvera). Esta é uma bailarina de um clube nocturno, onde homens solitários procuram belas acompanhantes para uns passos de dança e quiçá posteriormente algo mais, sendo alvo dos afectos de Rapallo. Davey perde o combate com Rodriguez, sendo instigado pela família a regressar à sua terra natal, enquanto Gloria se prepara para rechaçar os avanços de Rapallo. A bela dançarina é vizinha de Davey, que pode ver parte da casa da mesma através da janela (em momentos muito à "Rear Window"), algo que ajuda e muito quando esta é atacada por Rapallo, e conduz a uma corrida rápida do protagonista para a socorrer. Os dois acabam por trocar alguns diálogos, gerar uma certa cumplicidade e até um interesse amoroso, com Gloria a revelar o trágico passado com a irmã e o pai, qual femme fatale que se prepara para inebriar os sentimentos do protagonista, que logo cede perante esta, com quem pretende apanhar o comboio em direcção a Seattle. Quem não parece achar piada à ideia é Rapallo, que logo coloca os seus homens no encalço de Davey, prometendo dificultar e muito a vida ao casal e proporcionar um intenso e envolvente último terço, onde o perigo e a incerteza dominam.

 Ainda sem o grande estatuto que viria a granjear posteriormente, Stanley Kubrick consegue com um orçamento diminuto, actores pouco conhecidos e um talento já visível para a realização, criar um filme noir intenso, marcado por vários elementos associados às obras deste subgénero cinematográfico. Veja-se que não falta um espaço citadino marcado pela insegurança, o clube nocturno, personagens de carácter ambíguo, criminosos prontos a agirem à margem da lei, a utilização do chiaroscuro, as sombras a darem o aspecto das grades da prisão, a narração em off e até a célebre femme fatale. Esta femme fatale é interpretada por Irene Kane, uma actriz com uma carreira cinematográfica bastante curta (viria a enveredar por uma carreira de jornalista), que dá vida com alguma eficácia a Gloria, uma dançarina que está longe do magnetismo e carisma de uma Gilda, mas nem por isso deixa de colocar em polvorosa os homens que se interessam por si. Gloria é uma mulher aparentemente frágil, que viveu um trauma no passado, exposto num intenso flashback onde nos deparamos com uma cena de dança que pode induzir em erro para algo de idílico, embora termine em tragédia, enquanto esta procura escapar das garras do seu antigo chefe, tendo em Davey um elemento capaz de a ajudar nesse desiderato. Davey é um boxeur falhado, cujas habilidades para a arte do combate raramente saíram do campo das promessas, sendo interpretado por Jamie Smith, um actor que não compromete, mas também não entusiasma como este protagonista que conhece um conjunto de dias bem intensos graças ao travar de conhecimento com Gloria. Diga-se que o elenco cumpre, mas pouco sobressai, embora o argumento eficaz nos trace um enredo tenso, numa obra marcada por um trabalho de fotografia bem interessante, sobretudo no seu último terço, onde assistimos a uma intensa fuga do protagonista até confrontar Vincent Rapallo num armazém de manequins. O confronto é violento e inquietante, com a banda sonora e o trabalho de fotografia a exponenciarem toda esta atmosfera algo tensa em volta do conflito entre estes personagens, ao longo de uma obra onde Stanley Kubrick se assume como "mestre de cerimónias". 

Stanley Kubrick realizou, co-produziu e desenvolveua história que serviu de base para o argumento de Howard Sackler, editou o filme, foi o responsável pela fotografia, algo revelador da sua procura em controlar os vários elementos da obra cinematográfica, onde já encontramos algum do seu trabalho minucioso com a câmara, numa obra onde os cenários nocturnos são palco de uma história negra e intrincada, na qual nenhum personagem parece estar seguro. Este apresenta-nos a um conjunto de personagens com poucas perspectivas de futuro, desde marginais a bailarinas de clubes nocturnos, passando por assassinos e pugilistas pouco dados com o sucesso, numa cidade de Nova Iorque exposta no seu lado menos belo. Kubrick aproveita os cenários citadinos exteriores, faz com que os seus personagens deambulem pelas suas ruas, filma uns planos bem conseguidos, usa assertivamente o deep focus (veja-se quando vemos perfeitamente o que se passa no interior da casa de Gloria, através da sua janela, no interior do apartamento do protagonista), tudo isto com apenas vinte e seis anos de idade, apresentando uma maturidade já bastante assinalável, explorando e experimentando um conjunto de recursos que lhe vão ser muito úteis nas suas obras futuras. Essa maturidade é visível não só no inquietante último terço, mas também no combate de boxe, na cena de dança enquanto Gloria expõe o seu passado e no trabalho de fotografia. Ainda estamos longe de um Stanley Kubrick capaz de nos dar algumas obras marcantes da História do Cinema, mas nem por isso deixamos de estar perante um filme merecedor de algum interesse, que deixa antever uma carreira brilhante para o cineasta.

Título original: "Killer's Kiss". 
Título em Portugal: 
Realizador: Stanley Kubrick. 
Argumento: Stanley Kubrick e Howard Sackler.
Elenco: Jamie Smith, Irene Kane, Frank Silvera. 

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