De enfant terrible a iconoclasta, vários são os adjectivos para classificarmos o magnífico realizador Seijun Suzuki, um cineasta japonês que cometeu o "feito" de ser despedido da Nikkatsu devido a "Branded to Kill" ser considerada uma obra que não fazia sentido e ter sido um fracasso. Uma das obras anteriores a “Branded to Kill” que este realizou foi "Gate of Flesh", um filme que nos transporta para um Japão do pós-Guerra, marcado por pobreza, mortes, prostituição e um controlo notório dos soldados dos EUA, colocando-nos perante um grupo de prostitutas de Tóquio, que recebem no seu seio Maya (Yumiko Nogawa), um novo elemento, que gradualmente se insere nas dinâmicas das suas integrantes. A primeira vez que a encontramos Maya esta encontra-se a roubar para comer, símbolo de desespero e de uma nação depauperada, a nível económico e de valores morais, pedindo emprego a Komasa Sen (Satoko Kasai), que logo lhe pergunta se esta alguma vez já esteve com algum homem. Esta é ensinada às regras do grupo desde cedo, aprendendo que existe um conjunto de normas como nunca ter um chulo, ou seja, tem de arranjar directamente os clientes (como salienta O-Roku, tem de ser "directamente do vendedor para o comprador"), só estas é que se podem proteger umas às outras, não pode trabalhar de graça (desde Yuraku-cho até à ponte Kachidoki estão na sua área delimitada). Quem quebra as regras é fortemente punido, algo exemplarmente demonstrado no caso de O-Fuku, que fez sexo com um estudante que vende bilhetes da lotaria, algo que conduz Sen a cortar o cabelo desta e as restantes prostitutas a amarrarem-na a um pequeno barco. Outra das punidas é O-Machi, duramente chicoteada por estas mulheres, cujo quotidiano muda quando chega Shintaro Ibuki (Joe Shishido), um antigo soldado, agora ladrão, que é baleado e perseguido pelas autoridades, que encontra refúgio junto da casa das quatro mulheres. Sen, Roku, Maya e Mino deixam-no ficar, começam a desejá-lo e este a estas, com Maya a parecer aquela que mais próxima de quebrar as regras. Cada uma é distinguida pelas suas personalidades e cores: Maya com o seu vestido verde, Sen com o seu vestido vermelho (a líder do grupo, quente, sádica, pronta a punir os infractores), Roku com o seu vestido amarelo, Mino com o vestido roxo, cores que espelham bem a expressionista utilização das cores da narrativa, enquanto os sentimentos aquecem. em particular entre os personagens interpretados por Shishido e Nogawa. Shintaro faz Maya recordar-se do irmão, um militar que faleceu no Bornéu, embora os sentimentos sejam distintos do amor fraternal.
A chegada de Shintaro muda a vida destas, introduz um maior erotismo e também perigo à narrativa, que não terá problemas em lidar com temas ligados ao desejo sexual, prostituição, mercado negro, roubos, mortes e um algum pessimismo, enquanto esta figura masculina praticamente se transforma no centro da vida destas mulheres. Shintaro é um desses exemplos imorais, ou não roubasse uma vaca para matarem o animal, comerem e venderem partes do mesmo, e contrabandeasse penicilina, sendo perseguido pelas autoridades e desejado pelas mulheres. Se este trafica produtos, as mulheres que envolvem estes cenários de um gueto de Tóquio, super povoado, traficam o corpo, vendem sexo por dinheiro, enquanto os americanos que por lá passam também não são representados das melhores das formas e até os elementos religiosos já parecem ter encontrado dias moralmente mais reluzentes. A aspereza do território do Japão e da imoralidade que rodeia as prostitutas contrasta com a sensualidade e algum erotismo que Seijun Suzuki expõe através do quarteto de protagonistas (veja-se a cena onde as quatro estão em cima de uma embarcação algo degradada, com os seus vestidos colados ao corpo, com o cineasta a realçar a sensualidade destas), um conjunto de mulheres distintas que integram um grupo aparentemente coeso, com regras muito próprias que regularmente são quebradas. A bandeira dos EUA bem voa pelo território, mas a esperança não parece ser a melhor para quem quer viver de forma condigna. Maya, a mulher que recebe mais destaque da narrativa, nem parece muito dada a vender o corpo, mas nem por isso deixa de alucinar com Shintaro. Diga-se que não é apenas esta que se sente seduzida por este rude homem, também as suas colegas nutrem esse sentimento, exposto com alguma comicidade e lascívia por Seijun Suzuki, algo visível numa cena nocturna onde os personagens bebem em demasia e os vestidos realçam os corpos destas figuras femininas. Os vestidos realçam as formas corporais do quarteto, expõem as suas diferenças graças às cores, com "Gate of Flesh" a explorar paradigmaticamente a cor, tal como a iluminação, ou melhor, a falta desta última, para incrementar a narrativa. Quando estamos no refúgio das meretrizes, a luz escasseia, a escuridão muitas das vezes acompanha-as, fazendo-nos questionar se esta negritude também não poderá expor bem aquilo que esperamos dos seus futuros, embora a espaços até permita planos de belo recorte, como no momento em que Maya alucina com Shintaro, o seu rosto é exposto em close-up e o castigo ecoa na sua alma. O prazer sexual e a dor que pode vir pela cedência ao prazer da carne são elementos presentes nesta cena, mas também ao longo de todo o filme, com Seijun Suzuki a expor-nos a um espaço urbano degradado, moralmente devastado, onde a presença americana pouco acrescenta e o sexo parece trazer tudo menos sentimento e quando o traz vem acompanhado por castigo. Esta atmosfera negra, criada às pressas por Seijun Suzuki para cumprir o cronograma produtivo da Nikkatsu, a empresa de produção, que passava por dez dias de pré-produção, vinte e cinco dias de filmagens e três dias de pós-produção, resulta na perfeição, com "Gate of Flesh" a surgir como um filme barato, feito com recursos pouco adequados, impressionando como tudo resultou tão bem, mostrando que Suzuki é um perito nestes filmes de baixo orçamento, bem como a mostrar o dedo do meio ao estúdio como o fez em "Branded to Kill" e realizar uma das suas obras-primas.
"Gate of Flesh" marca um desvio dos filmes de gangsters de Suzuki, mas nem por isso o tira do lodo moral da humanidade, expondo os espectadores perante a prostituição e gente sem perspectivas de futuro, que tem de vender o corpo para comprar a carne para comer. Estas temáticas, polémicas, ou não estivéssemos numa representação de Tóquio quase como o Inferno na Terra, conduziram a que várias actrizes ligadas à Nikkatsu rejeitassem participar no projecto, mas nem por isso os elementos seleccionados deixam de dar conta do recado, sobressaindo sobretudo Yumiko Nogawa, que viria a trabalhar ainda com Suzuki em "Story of a Prostitute" (1965) e "Carmen from Kawachi" (1966), os dois filmes que completam a "trilogia da carne" iniciada em "Gate of Flesh". A Maya de Nogawa é frágil e sensual, dada a prazeres e contenções, alvo do destino e dos seus princípios, que se deixa apaixonar por Shintaro embora este apenas a deseje. Interpretado por Joe Shishido, uma das estrelas da Nikkatsu, protagonista de obras divinais como "Branded to Kill" e "A Colt is My Passport", o actor interpreta um criminoso que desperta o desejo do quarteto de prostitutas, estando para a narrativa como a célebre maçã para Adão e Eva. Este é o símbolo do fruto proibido e de regras prontas a serem quebradas no meio deste cenário soturno, mas ao mesmo tempo tão vivo e cheio de cor. A paleta cromática é habilmente utilizada por Shigeyoshi Mine, sobressaindo as tonalidades das cores dos vestidos (vale a pena realçar a importância do guarda-roupa, sobretudo o de Michiko, que surge com um quimono, pronto a representar um Japão do passado) e os intensos close-ups, expondo uma atmosfera de imoralidade e desejo. Estamos assim perante um território urbano algo lúgubre, numa das obras marcantes da Nova Vaga do Cinema japonês, em grande nível nestes anos 60 do Século XX, com esta obraa surgir paradigmática dos temas polémicos que estas películas abordavam. Não faltam os personagens desajustados da sociedade como protagonistas, a violência sexual (até algum sadismo), a imoralidade e até um certo pessimismo, fruto de um contexto cultural distinto, já sem a censura dos EUA, mas com as marcas deixadas pelo pós-Guerra, num filme que remete ainda para os pinku eiga, obras meio soft-core, geralmente produzidas por pequenos estúdios, que proliferaram entre os anos 60 e 80 no Japão. Diga-se que esta adaptação da obra literária homónima de Tamura Taijiro foi um dos casos raros de um pinku eiga produzido na Nikkatsu, sendo um dos primeiros filmes japoneses para um público mainstream a mostrar corpos nus, revelando a audácia do seu cineasta. Com uma brilhante utilização das cores e uma história intensa onde a imoralidade parece fazer parte do quotidiano, "Gate of Flesh" descobre os corpos e os sentimentos e apresenta-se como um potente drama, numa obra onde Seijun Suzuki não deixa grandes dúvidas de que é um grande realizador.
Título original: "Nikutai no mon".
Título em inglês: "Gate of Flesh".
Realizador: Seijun Suzuki.
Argumento: Taijiro Tamura e Goro Tanada.
Elenco: Joe Shishido, Yumiko Nogawa, Satoko Kasai, Koji Wada, Tomiko Ishii, Kayo Matsuo, Misako Tominaga, Keisuke Noro.


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