Seijun Suzuki já tinha abordado a história de um conjunto de prostitutas, centrada mais especificamente na da personagem interpretada por Yumiko Nogawa em "Gate of Flesh". Em "Story of a Prostitute", Suzuki volta a trabalhar com Yumiko Nogawa, naquele que pode ser considerado o segundo capítulo da "trilogia da carne" iniciada em "Gate of Flesh", com o cineasta a apresentar mais uma vez a exploração do corpo da mulher, voltando a exibir cenas de nudez, remetendo para os pinku eiga, embora a um nível mais contido (não existindo a faceta exploitation de obras como "Sex and Fury", "Woman with Red Hair", entre outras). Nogawa interpreta Harumi, uma mulher que se apaixonou por um japonês em Tianjin, esperando um dia casar-se com este, algo que não acontece, com o amado a contrair matrimónio com uma mulher que não ama, mas não tem o mesmo oficio da protagonista. Perante esta situação, Harumi decide ir trabalhar para um bordel num território nas proximidades da Manchúria, onde se encontra uma unidade militar japonesa, fruto da segunda Guerra Sino-Japonesa, com a narrativa a desenrolar-se neste período. Ferida no seu orgulho, esta procura conhecer o maior número de homens possível, despertando a atenção do violento Narita (Isao Tamagawa), o ajudante de comando que por vezes toma atitudes de posse para com esta, algo que não agrada à prostituta. Narita é um indivíduo que trata estas mulheres como cães e os seus inferiores com pouco respeito, incluindo Mikami, o seu ajudante. Harumi procura seduzir Mikami (Tamio Kawaji), um indivíduo leal para com o seu superior, tendo em vista a que este cometa traição e elimine o personagem interpretado por Isao Tagawa. Mikami ainda resiste, chegando até a exibir um comportamento violento para com a protagonista, mas gradualmente acaba por ceder, chegando-se a gerar uma relação que envolve mais do que sexo entre ambos. Harumi e Mikami desenvolvem um amor proibido em tempos de guerra, algo que promete despertar a ira do superior do segundo, embora tudo piore com os ataques chineses à unidade militar, desembocando na captura do personagem interpretado por Tamio Kawaji. Se este sobreviver será sujeito a corte marcial e morto, embora rejeite passar para o inimigo, revelando valores de lealdade dignos dos samurais para com os seus mestres, neste caso para com o Imperador, embora o filme até deixe implícita uma crítica às regras militares. Veja-se que Mikami, um militar que rejeita passar para o inimigo, está sujeito a poder morrer devido a não ter cometido suicídio antes de ser capturado, um código de honra explorado com uma subtil mordacidade por Seijun Suzuki, ao mesmo tempo que nos deixa perante uma história de amor em tempos de guerra, numa obra marcada por uma crueza e dramatismo notáveis.
É notável como Seijun Suzuki consegue incutir o seu estilo autoral nas obras, mesmo no âmbito de produção num estúdio como a Nikkatsu, embora tivesse alguma liberdade visto que realizava maioritariamente filmes de baixo orçamento, nunca conseguindo ter a total confiança dos seus superiores, algo que terá o seu ponto alto no despedimento devido ao fracasso de "Branded to Kill". Se Akira Kurosawa representa quase a perfeição na realização, já Suzuki sobressai pela soma das suas imperfeições e qualidades, tendo em "Story of a Prostitute" uma obra que tematicamente podemos ligar com "Gate of Flesh", mas também com outros dos seus trabalhos, sendo um exemplo dos filmes da chamada Nova Vaga do Cinema Japonês, ou não tivesse como protagonista uma prostituta (ou seja, um elemento à margem da sociedade), lidando com temas polémicos como a violência sobre as mulheres (onde podemos incluir a prostituição), ao mesmo tempo que nos deixa perante um conflito bélico entre a China e o Japão, bem como com uma crítica à sociedade do seu tempo (veja-se a estratificação social, desde logo explorada na hierarquia militar e nas regras desajustadas do exército japonês). Os ataques militares exacerbam o perigo destas gentes obrigadas a viver no limite, com sete prostitutas a terem de trabalhar para satisfazer um batalhão, embora uma até se enamore verdadeiramente, nomeadamente, Harumi. Yumiko Nogawa volta a sobressair numa obra de Seijun Suzuki, como esta mulher bela e ardilosa, com uma personalidade forte e pronta a enfrentar os perigos, marcada por um desgosto amoroso no passado, que nem sempre se parece preocupar com a sua profissão e de exercer a mesma, tendo em Mikami um amor inesperado. As expressões de Nogawa são exacerbadas pelos close-ups, mas também pelos retratos efectuados ao seu semblante, com Suzuki a brindar-nos com uma cena belíssima no final, onde a tragédia e a arte se juntam, colocando imagens estáticas quando os sentimentos são revoltos, até voltar a dar movimento e mostrar que não se limita a ser um tarefeiro ao serviço da Nikkatsu. Este beneficia ainda de um bom trabalho de fotografia, sobressaindo o sublime trabalho a nível de iluminação e da utilização das sombras (veja-se quando sobressai os corpos em cenários escuros), aproveitando os cenários, sobretudo os fechados (veja-se o bordel onde muitos dos sentimentos são expostos), dimensionando um filme que conta com um argumento regular a algo acima da média. Seijun Suzuki adapta a obra literária de Taijiro Tamura, também este um soldado no conflito, voltando a demonstrar o seu cunho pessoal em "Story of a Prostitute", um filme que é muito mais do que aquilo que nos diz o seu título em inglês, apresentando uma continuidade temática com "Gate of Flesh", uma das obras mais singulares deste cineasta que merece muita atenção.
Título original: "Shunpu den".
Título em inglês: "Story of a Prostitute".
Realizador: Seijun Suzuki.
Argumento: Hajime Takaiwa.
Elenco: Yumiko Nogawa, Tamio Kawaji, Isao Tamagawa, Shoichi Ozawa.
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