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Resenha Crítica: "Double Suicide" ("Shinjû: Ten no Amijima")

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

 Os amores proibidos e trágicos são uma temática muito presente na literatura, cinema, televisão e teatro, algo paradigmaticamente representado na obra "Romeu e Julieta" de William Shakespeare. "Double Suicide", um filme belissimamente filmado a preto e branco, que nos coloca perante uma adaptação da peça de bunraku "The Love Suicides at Amijima" (Shinjū Ten no Amijima or Shinjūten no Amijima), escrita por Chikamatsu Monzaemon, tendo como pano de fundo o Japão no Século XVIII, remete exactamente para uma história de amor trágica, centrada em Jihei (Kichiemon Nakamura), um negociante de papel casado e financeiramente pouco abonado, e a bela cortesã Koharu (Shima Iwashita). Os dois apaixonaram-se há três anos. Kaoru procura evitar todos os clientes que não Jihei, sonhando que algum dia este consiga reunir o dinheiro para a sua redenção, como salienta "Estou presa por dinheiro da cabeça aos pés." questionando ainda "Quem imaginou a venda de mulheres como cortesãs?". Jihei é casado e tem dois filhos, mas apenas tem olhos para Kaoru, embora a sua esposa até lhe seja uma mulher dedicada, com o protagonista a balancear entre as suas obrigações sociais e morais numa sociedade conservadora, e aquilo que lhe manda o coração. Este descura a sua família e o negócio pela amada, mas tudo muda quando Magoemon, o seu irmão, se finge de cliente e Kaoru aceita que este pague a sua libertação para evitar o suicídio ao lado do amado, algo que lança a fúria de Jihei e uma procura em ser fiel à esposa, pelo menos até saber a verdade sobre as palavras da amada e protagonizar com esta alguns momentos emocionalmente intensos ao longo deste magnífico drama realizado por Masahiro Shinoda. Este realizou várias adaptações ao grande ecrã, entre as quais "Silence", baseado na obra literária homónima de Shusaku Endo (onde volta a colaborar com Sima Iwashita), tendo em "Double Suicide" um drama sublime, explorando a relação adúltera entre um comerciante e uma cortesã, duas figuras de estratos sociais distintos, em plena sociedade conservadora japonesa do Século XVIII. Jihei e Kaoru são acompanhados por estranhas figuras com rostos tapados, indicadores de que estes são meras marionetas do destino, que coordena as suas vidas, quais marionetas de bunraku, com a narrativa a não descurar a vertente teatral das suas origens, com os marionetistas a serem representados nas figuras vestidas de negro que acompanham em alguns momentos os personagens. "Double Suicide" até começa por nos apresentar a preparação de uma peça de bunraku, mas logo nos coloca perante esta trágica história, marcada por paixões impossíveis, amores não correspondidos e decisões trágicas, explorados num conjunto restrito de cenários e numa imensidão de sentimentos. Esses sentimentos do casal são muitas das vezes de dor, a dor de um amor que só pode acabar em tragédia, na decisão de um duplo suicídio que promete resolver coisa nenhuma a não ser uma união momentânea, ou se calhar até resolve muito ao esbater as diferenças sociais e tudo aquilo que separa o casal. Mas também uma dor por sofrimento, como a de Jihei por tardar em pagar a redenção da amada junto do seu proprietário, ou até a dor de Osan perante o desprezo do esposo, sempre sem esquecer a comovente figura de Kaoru.

Será possível ficarmos indiferentes ao rosto de dor de Kaoru quando Tahei, um cliente pouco educado e financeiramente abastado, procura comprar os seus serviços e trata-a como mera mercadoria? É humanamente impossível ficar indiferente à tristeza que sai da sua alma e é exposta pelo seu rosto pintado de branco, com esta a transmitir-nos todo o seu desalento, quase que nos tornando cúmplices da sua tristeza. A interpretação magnífica de Shima Iwashita, num duplo papel, dando vida a Kaoru e Osan, explorando as diferentes personalidades das mesmas, a distinta relação que cada uma tem com o protagonista e a solidariedade que surpreendentemente criam uma com a outra contribuem e muito para o adensar do impacto emocional das suas cenas. Iwashita transmite as fragilidades destas mulheres, algo dependentes da figura masculina (Osan do seu pai, Kaoru do seu proprietário) e prontas a amarem o protagonista, com o coração deste a bater mais forte pela cortesã, embora pelo caminho até cometa alguns erros para com esta. As interpretações de Shima Iwashita e Kichiemon Nakamura por vezes parecem imbuídas de alguma teatralidade, respeitando as origens do material que deu origem ao filme (incluindo a própria caracterização dos personagens), enquanto Masahiro Shinoda realiza uma pérola cinematográfica, onde os sentimentos andam sempre à flor da pele, em pleno Japão do Século XVIII. O cineasta procura transmitir os valores da época, muito marcados por um enorme conservadorismo e um papel de pouco relevo da mulher na sociedade (embora exiba uma certa lealdade entre Kaoru e Osan, revelando uma procura de emancipação em relação à figura do homem, com Shinoda a introduzir elementos do Japão do pós-Guerra na sua obra), sendo também capaz de expor os elementos adequados à mesma, tais como o guarda-roupa, não faltando os célebres kimonos, o kurago (os fatos pretos dos indivíduos que movimentam as marionetas e seguem os protagonistas) e até os penteados a preceito. Essa atenção ao pormenor exposta no guarda-roupa, representação da sociedade e da caracterização, é visível também nos cenários primordiais, tais como a casa do protagonista e no espaço onde as cortesãs exercem o seu ofício (com o chão decorado com magníficos desenhos e um conjunto de grades que exacerbam o quão reduzida é a margem de manobra do casal), locais fechados e aprisionadores do extravasar dos sentimentos, embora nem por isso impeçam que os mesmos sobressaiam. Ficamos assim perante um drama humano, onde figuras misteriosas exercem a acção do destino e os protagonistas revelam-se incapazes de as contrariar, numa obra que não renega as suas raízes teatrais e revela-se um dos grandes filmes da Nova Vaga Japonesa, fervilhante em plenos anos 60, de criatividade e muita qualidade. Com um trabalho de fotografia sublime, "Double Suicide" apresenta-nos a um romance entre dois elementos de dois grupos sociais distintos, dá destaque a elementos à margem da sociedade (com a cortesã a espaços a fazer recordar as histórias trágicas das gueixas de obras de Mizoguchi), expondo-nos as diferenças de estatutos sociais (que apenas são quebrados pela morte), criando uma história intensamente dramática, marcada por simbolismos, uma banda sonora adequada e um conjunto de imagens em movimento belíssimos, onde as sombras por vezes invadem o ecrã, os close-ups meticulosos expõem paradigmaticamente as inquietações destes personagens e Masahiro Shinoda realiza uma obra extraordinária.

Título original: "Shinjû: Ten no Amijima".
Título em inglês: "Double Suicide".
Realizador: Masahiro Shinoda.
Argumento: Masahiro Shinoda, Tôru Takemitsu, Taeko Tomioka.  
Elenco: Kichiemon Nakamura, Shima Iwashita, Hosei Komatsu, Yusuke Takita, Kamatari Fujiwara.

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