Entre alucinações, pássaros mortos, borboletas que se colocam no caminho do cano das espingardas, mortes violentas, tiroteios, corpos desnudos e um protagonista com fetiche pelo cheiro de arroz, "Branded to Kill" é um pedaço meio surreal de cinema, que nos extasia e inebria com a sua história nem sempre perceptível. Este protagonista é Goro Hanada (Joe Shishido), um gangster de terceiro escalão que se prepara para protagonizar um conjunto de episódios violentos e peculiares, a partir do momento em que entra em contacto com Kasuga, um antigo assassino a soldo de prestígio, que caiu em desgraça e agora trabalha como taxista, pedindo ajuda ao antigo colega para participar num novo trabalho e assim poder regressar a este mundo. Os dois, em conjunto com Mimi, a traiçoeira mulher de Goro, deslocam-se até ao clube nocturno de Michihiko Yabuhara, um chefe da máfia que lhes dá a missão de transportarem um cliente de Sagami até Nagano em segurança, uma missão que surge carregada de perigos e um notório interesse do mafioso na mulher do protagonista. Goro e Kasuga logo se dirigem ao carro designado para a missão, onde se encontra um cadáver do qual se vêm livres, recebendo posteriormente o cliente, tendo ainda de lidar com vários criminosos e emboscadas, com "Branded to Kill" a expor-nos perante um conjunto de tiroteios e fugas intensas, adensados por um dinâmico trabalho de fotografia e de montagem (algo rudimentar mas capaz de incrementar a tensão). Goro consegue com sucesso transportar o cliente, mas Kasuga acaba por ser eliminado, após ceder ao vício pelo álcool e ser assassinado por um inimigo. Perante uma avaria no carro, Goro Hanada é transportado por Misako (Annu Mari), uma femme fatale, que surge inesperadamente, num dos muitos momentos em que Seijun Suzuki acha que não nos tem que apresentar os personagens e os seus objectivos. Posteriormente, Goro é contratado por Yabuhara para eliminar quatro elementos, revelando-se certeiro e criativo no cumprimento deste desiderato, até a femme fatale Misako, aparentemente obcecada com a morte, lhe oferecer a missão de assassinar um estrangeiro, um trabalho para o "demónio". No entanto, a presença de uma borboleta faz com que o protagonista falhe o alvo e elimine uma inocente, conduzindo a que passe a ser perseguido, tendo em Misako um objecto de desejo e morte, na esposa um elemento pronto a traí-lo e no Número Um, o assassino de topo da sua organização, o seu maior desafio, protagonizando com este misterioso elemento uma espécie de jogo entre o "gato e o rato" no último terço intenso e marcado por alucinações várias, que espelham bem o ambiente meio surreal desta obra de Seijun Suzuki.
Reza a lenda que Seijun Suzuki foi contratado para escrever e realizar "Branded to Kill", após a Nikkatsu Company mostrar algum descontentamento perante o argumento original, com o cineasta a aproveitar algumas liberdades para elaborar uma obra meio surreal, marcada por uma atmosfera inebriante e próxima de um sonho, apresentando um último terço paradigmático de toda a saudável loucura e anarquia atribuída pelo realizador. Quem não achou muita piada foi a Nikkatsu, não só pelo filme ter sido um fracasso a nível da crítica (sendo hoje considerado uma obra de enorme relevância), mas acima de tudo junto do público, conduzindo ao despedimento do talentoso realizador, com este a processar o estúdio e a vencer esta contenda, tendo posteriormente ficado dez anos sem realizar. Hoje a decisão da Nikkatsu parece meio absurda, ou não se tivesse gerado um grande culto em volta de "Branded to Kill", que tem em nomes como Jim Jarmusch, John Woo, Chan-wook Park, Quentin Tarantino alguns dos seus defensores, representando um período de algum fulgor produtivo e criativo do estúdio (podemos dizer quase o seu canto do cisne), sendo representativo do contexto distinto do Japão no período do pós-Guerra, inserindo-se na "Nouvelle Vague japonesa", bem como nos mukokuseki akushon, que remetem para o termo "acção sem limites", aplicado para as obras lançadas pela Nikkatsu a partir dos anos 50, num período seguinte ao final da censura aplicada pelos EUA ao território, sendo marcada por elementos dos filmes noir, de gangsters e os filmes de detectives norte-americanos. Nesse sentido, é possível vermos obras como "Branded to Kill", protagonizada por um criminoso, neste caso interpretado por Joe Shishido, um actor "especializado" em personagens do género, dando vida a um carismático anti-herói que procura triunfar no mundo do crime, marcado por bizarros gostos, não faltando o fetiche pelo cheiro de arroz cozido, num filme que conta ainda com a presença de mulheres fatais, misoginia, personagens de carácter dúbio, muitas mortes (algumas criativas, como no momento em que o protagonista dispara através de um cano para eliminar o oftalmologista que se encontrava no consultório), ou seja, marcado por elementos pouco recomendáveis. Se os personagens que povoam a narrativa são pouco recomendáveis, já o trabalho de Seijun Suzuki é altamente relevante, expondo a rebeldia e talento deste cineasta, pronto a expor uma obra esteticamente interessante, composta por uma história meio surreal, marcada por muita anarquia, violência e humor, resultando numa das películas mais relevantes do cinema japonês dos anos 60.
"Branded to Kill" é também o exemplo de uma obra muito à frente do seu tempo, tendo sido reavaliada com o passar dos anos e encontrando-se pronta a ser redescoberta. Não é só por todos estes elementos que a obra é relevante, também o seu elenco merece alguma da nossa atenção, com Joe Shishido a surgir mais uma vez como um gangster aparentemente impassível e cheio de taras, para quem "a bebida e as mulheres matam o assassino", tendo a companhia de elementos de grande valor, tais como Annu Mari. Esta dá vida a Misako, uma femme fatale que conta com pássaros mortos como adereço, uma casa decorada com borboletas mortas (símbolo do amor obsessivo do protagonista), matreira e sedutora, cujas feições e expressões são exacerbadas pelos close-ups assertivos. A fotografia é outro dos elementos importantes para esta atmosfera inebriante do filme, notando-se as claras influências dos filmes noir, não faltando um aproveitamento das sombras, para além da inspiração notória a nível temático, ou não estivessemos perante um filme marcado por personagens de carácter duvidoso e objectivos pouco claros, crime, femme fatales e até um clube nocturno. Diga-se que "Branded to Kill" remete-nos para outras obras do género produzidas no Japão, como "A Colt is my Passport", também protagonizada por Joe Shishido, que nos deixa perante um criminoso como anti-herói e claras reminiscências das obras cinematográficas norte-americanas, embora Seijun Suzuki atribua toda uma anarquia e humor que distingue a sua obra dos restantes filmes sobre gangsters/yakuza. As obras protagonizadas por criminosos não são algo de estranho na carreira de Suzuki, com este a ter realizado filmes marcantes como "Tokyo Drifter" que contava exactamente com criminosos como protagonistas, com este a destacar-se entre os cineastas de filmes de série b da Nikkatsu, conseguindo com baixos orçamentos filmes de grande valia, embora não tivessem o mesmo reconhecimento de cineastas japoneses como Akira Kurosawa. Diga-se que mesmo no interior da Nikkatsu, Suzuki não conseguia ter o respeito e confiança que pretendia, sendo que "Branded to Kill", com as suas elipses e uma certa desconstrução do filme policial, não contribuiu para a sua popularidade imediata, embora a sua obra tenha ultrapassado o maior desafio: o do teste do tempo. Espectáculo violento e de saudável anarquia, "Branded to Kill" não poupa o seu protagonista a adversidades várias, enquanto nos deixa extasiados perante este irreverente filme noir japonês, marcado por tiroteios cheios de estilo, muito humor e bizarria, onde o arroz pode ser um afrodisíaco inesperado.
Título original: "Koroshi no rakuin".
Título em inglês: "Branded to Kill".
Realizador: Seijun Suzuki.
Argumento: Hachiro Guryu.
Elenco: Joe Shishido, Koji Nanbara, Annu Mari, Mariko Ogawa.


Nenhum comentário:
Postar um comentário