Realizado por Betse de Paula, "Vendo ou Alugo" foi o filme seleccionado para encerrar a edição de 2014 do FESTin. Aproveitando a presença da talentosa e extremamente simpática cineasta em Portugal, o Rick's Cinema teve a oportunidade de efectuar algumas perguntas a Betse de Paula. Na entrevista, Betse de Paula falou sobre "Vendo ou Alugo", os seus próximos trabalhos, a recepção que o filme teve por parte do público e da crítica no Brasil, entre outros assuntos.
Rick's Cinema: Numa entrevista ao Adoro Cinema ouvi a Betse de Paula a dizer que não a consideravam como uma realizadora de comédias. Acha que “Vendo ou Alugo” já permitiu mudar essa opinião?
Betse de Paula: Eu já fiz comédias e documentários, mas eu não me considero uma realizadora de comédias. Acho muito bom fazer comédias, divertimo-nos bastante enquanto realizamos, então quando a comédia tem alguma mensagem e gera pensamento ainda melhor. Numa comédia temos uma ligação directa e imediata com o público, a resposta é imediata:“Riu e é na hora”. Ver uma sala cheia com o público a rir é um prazer enorme, é uma maravilha.
RC: Ao longo do filme encontramos temáticas sérias como especulação imobiliária, crise financeira, convivência com a favela, embora abordadas com algum humor. Na génese do filme já estava esta procura em mesclar este assuntos bem reais com o enredo?
BDP: Eu demorei muitos anos para realizar esse projecto. Quando eu comecei a realizar já existia esta questão da favela. O Rio de Janeiro tem essa particularidade da favela estar muito próxima da zona sul, que é a zona chique da cidade. Com o passar do tempo a situação foi agravando, depois tivemos a ocupação, o PP e o argumento foi sendo adaptado aos novos tempos. Essas mulheres moram na fronteira com a favela, estas faliram, já não têm mais como manter o lar, então vão ter de vender ou alugar a casa e têm de conviver com aquilo. Então é um filme que retrata a convivência entre as diferentes classes e entre estas quatro mulheres.
RC: Um dos elementos que sobressai no filme centra-se na boa construção das personagens femininas, veja-se o caso da Marieta Severo como Maria Alice. A personagem foi pensada para a Marieta ou construiu a personagem com a actriz?
BDP: Na verdade, a personagem é muito inspirada na co-roteirista do filme, a Maria Lúcia Dahl, uma musa do Cinema Novo. Aí fomos agregando elementos à personagem. Temos ainda a Maria Eudóxia, eu adoro a personagem. É uma mulher falida, que se encontra regularmente com as amigas e é viciada no jogo, que termina na favela e a achar aquilo óptimo. Temos ainda a Baby, a filha da Maria Alice, uma personagem bastante actual, uma mulher desapegada da realidade, que trabalha com a ecologia, praticamente de outro planeta. Eu acho que conseguimos um bom elenco.
RC: Ainda no elenco encontramos uma atmosfera familiar. A Bia Morgana é sua filha, o Marcos Palmeira é seu irmão. A Silvia Buarque é filha da Marieta Severo. Como foi conduzir estes nas filmagens (anteriormente já tinha trabalhado com estes)?
BDP: A Sílvia Buarque trabalhou comigo noutras obras cinematográficas que eu realizei. Ficou um ambiente muito familiar e alegre, mas também muito profissional. Acho que conseguimos transmitir essa alegria para o público.
RC: A casa é um local muito relevante para o enredo, onde por vezes parece impossível os personagens conseguirem sair, como acontece no último terço. Foi complicado escolher este cenário?
BDP: Nós demorámos muitos anos para fazer o filme. Os vários tratamentos do argumento já foram pensados tendo em conta a casa seleccionada. Foi muito difícil encontrar uma casa que mantivesse a favela à vista. Quando encontrámos aquela casa começámos a pensar o argumento do filme conforme a mesma. A casa é cenário e personagem. Tirámos também inspiração de “O Anjo Exterminador” do Luís Buñuel, com as pessoas a entrarem na casa e a não conseguirem sair mais.
RC: Essas cenas do último terço contaram com improviso ou estava tudo presente no argumento?
BDP: O argumento está muito presente, mas também tivemos muitas cenas de improviso, em que decidimos filmar de forma distinta do que estava inicialmente previsto. Também aproveitámos a locação pouco usual do filme.
RC: Como foi filmar perto da favela?
BDP: Foi super tranquilo. Nós almoçávamos na favela, saíamos normalmente, não tivemos um único problema.
RC: O estrangeiro que quer comprar a casa para formar um hotel perigoso é inspirado em algum caso real?
BDP: Foi a Mariza Leão (produtora) que criou esse personagem. Ela disse que o possível comprador da casa não poderia ser uma família brasileira, mas sim um estrangeiro. É algo que tem acontecido muito no Brasil, os estrangeiros fazerem roasters na favela. Então decidimos criar um personagem que é um estrangeiro que quer montar um hotel perigoso.
RC: Como o filme tem sido recebido pela crítica e pelo público no Brasil?
BDP: A recepção da crítica até tem sido boa, o filme recebeu doze prémios no Festival do Recife, incluindo o prémio de Melhor Filme do público, da crítica e do júri. As comédias nem sempre são bem recebidas pela crítica, mas o filme também procura pensar sobre o Brasil e tem conteúdo. Já a nível de público não foi muito bem recebido.
RC: Já conta com novos projectos?
BDP: Eu fiz um outro filme, um documentário sobre Sebastião Salgado e eu pretendo fazer mais uma comédia. Eu gosto de documentários, sendo que estes não precisam de muito dinheiro para fazer, mas gosto muito de comédias, é mais divertido e permite um maior contacto com o público.
Uma comédia novamente com a presença do Marcos Palmeira, Bia Morgana, Marieta Severo?
BDP: É muito engraçado formar um elenco. Nós chamamos as pessoas, elas vão aceitando até que chega a uma hora em que eu falo: “mas o que é que é isso, eu não me acredito”. No caso de "Vendo ou Alugo", a Marieta Severo aceitou, a Nathália Timberg achou que estava óptimo, depois o Marcos Palmeira aceitou e quando me apercebi tínhamos reunido um elenco incrível. Mesmo a Maria Assunção que faz a empregada Maria da Graça, apesar de ter pouca experiência a nível cinematográfico, tendo trabalhado essencialmente em teatro, está muito bem. A Bia Morgana, a minha filha também esteve bem, ela era uma menina quando fez o primeiro filme. A qualidade do elenco eleva o filme.
RC: Está familiarizada com o cinema português e algum dos nossos cineastas?
BDP: Conheço alguns cineastas como o Manoel de Oliveira, o José Fonseca e Costa, vi recentemente o filme da Maria de Medeiros.
RC: Em Portugal o cinema português tem conhecido algumas dificuldades a nível do financiamento dos filmes, não só a nível de investimento público, mas também privado. A situação no Brasil também é complicada a nível de conseguir financiamento para os filmes?
BDP: É complicadíssimo, é muito caro fazer cinema. Temos um mercado muito pequeno no Brasil, o cinema brasileiro ocupa cerca de 20% do nosso mercado, visto que as salas estão maioritariamente ocupadas por cinema dos EUA.
Fonte: Entrevista a Betse de Paula sobre "Vendo ou Alugo"»

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