A realizadora Lúcia Murat esteve recentemente em Portugal para promover "A Memória que me Contam", um filme que esteve em exibição na edição de 2014 do FESTin. O Rick's Cinema, através deste blogger (Aníbal Santiago) teve a oportunidade de fazer algumas questões à cineasta, cujas respostas podem ser lidas já de seguida.
Rick's Cinema: Como surgiu a ideia para desenvolver “A Memória que me Contam”?
Lúcia Murat: Na verdade eu tive a ideia há muito tempo, há cerca de vinte anos. O filme surge como homenagem a Vera Sílvia Magalhães. Ela foi uma pessoa muito importante para a minha geração, ela ficou muito mal, teve vários surtos, teve vários cancers, quando esteve internada nós íamos sempre visitá-la. Mas era uma ideia como milhares de várias ideias que por vezes nem sempre são desenvolvidas. Quando a Vera morreu eu decidiu fazer o filme em sua homenagem, mas a ideia original passava por fazer um filme sobre o grupo de personagens que conviveram com esta, com estes a conversarem e a discutirem sobre o presente, o passado e o futuro. No entanto, isso acabou por mudar quando fomos desenvolvendo o argumento, pois a personagem da Ana que é inspirada na Vera, foi-se impondo no mesmo. Nesse momento eu tive a ideia de fazer a personagem apenas na imaginação das pessoas, como se fosse um mito, sempre jovem, o Fernando Pessoa tem um poema muito bonito sobre o mito que até me inspirou um pouco para fazer essa personagem.
RC: A Simone Spoladore tem um desempenho que desperta a atenção como Ana. Pode falar-nos um pouco de como foi criar esta personagem com a actriz?
LM: Eu acho que a Simone colaborou muito na criação da personagem, ela foi muito emotiva e deu à personagem um lirismo e uma doçura que nem existiam no argumento. Foi uma contribuição muito grande. Eu dou liberdade aos actores, quando estes correspondem é muito bom. Tem cenas que foram criadas no set. A cena em que a Ana abraça a Chloé não estava prevista. No argumento estava marcado que estas apenas se olhavam, mas foi uma dessas coisas intempestivas. A Naruna, a actriz que interpreta a Chloé, ela ficou tão emocionada que abraçou a Simone e disse “você é maravilhosa” e esta última disse para ela não parar porque também não tínhamos parado de filmar. E aí começou aquela coisa de uma a passar a mão na face da outra. É uma colaboração das actrizes.
RC: Outro dos elementos que se destaca é Irene Ravache como Irène, uma cineasta que expressa os seus ideais com a sua arte. Podemos fazer um paralelo entre a Lúcia e a Irene?
LM: Na verdade a Irene Ravache interpretou a personagem no meu primeiro filme e a minha ideia foi rever a mesma personagem. O “Memória que me contam” faz um paralelo muito grande com o meu filme, que era sobre a Ditadura, sobre a tortura, é um filme muito mais “bravo”, eu fiz essa personagem especificamente para a Irene.
RC: Procurou fazer um balanço da geração de 68 (da qual fez parte), através da história de Ana e dos personagens que a rodeiam?
LM: A ideia do filme é exactamente fazer um balanco de geração. Mas não apenas um balanço de geração no sentido do passado, mas também a nossa relação com o presente e a nossa relação com os nossos filhos. Geralmente os nossos filhos são representados como drogados, doidões, apenas interessados no dinheiro, e eu pretendi demonstrar que estes são pessoas com interesses artísticos e sociais, apenas vivem noutro Mundo. Isso gera conflito, o peso da minha geração é muito grande.
RC: A sensação que fiquei em vários dos personagens que participaram na luta contra a Ditadura é que muito foi feito, mas muito ainda continua por fazer no Brasil, algo que pode ser comparado com alguns elementos que lutaram contra a ditadura em Portugal. Sente que esta nova geração continua o espírito de luta da geração de 68?
LM: Eu acho que a nova geração vive numa outra realidade e tem outros objectivos. Basta ver a realidade do que aconteceu no Brasil no ano passado, que entronca no que é abordado no filme. As pessoas foram para as ruas, fizeram manifestações muito fortes e é um pouco isso que você falou, os objectivos são outros, as necessidades são outras. O Brasil mudou muito. Nos anos 60 era um país maioritariamente rural, hoje boa parte da população mora em cidades, estas não são Metrópoles, são Monstrópolis. As pessoas foram para as ruas no ano passado porque queriam uma vida melhor, lutaram por direitos como melhoria de condições nos transportes, saúde pública, entre outros. São objectivos diferentes da Geração de 68 que pretendia uma Revolução, uma utopia total e queríamos acabar com a ditadura. É importante o diálogo, numa democracia o diálogo é fundamental para todos nós.
RC: Como o filme tem sido recebido pela crítica e pelo público no Brasil?
LM: O filme é um co-produção entre o Brasil e a Argentina, tendo sido mais discutido na Argentina do que no Brasil. Foi exibido no Festival Internacional de Cinema de Moscovo, onde venceu o prémio Fipresci.
RC: Está familiarizada com o cinema português e algum dos nossos cineastas?
LM: Conheço os filmes que acompanho nos festivais.
RC: Já conta com novos projectos?
LM: Estou a terminar dois filmes. Um documentário sobre os índios com quem trabalhei no “Brava Gente Brasileira”, um filme que contou com a participação do Diogo Infante. O filme é um balanço do que aconteceu com os índios, quinze anos depois do “Brava Gente Brasileiro”. O outro é um filme de ficção dificil de definir, sobre o ciclo da vida, onde utilizo Dança contemporânea, textos da Simone de Beauvoir, é uma abordagem meio aberta.
Fonte: Entrevista a Lúcia Murat sobre "A Memória que me Contam"»

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